o autor russo Ivan Turguêniev

Com personagens engajadas, autor russo focou no embate entre gerações para expor interações de amor e ódio

Giovana Proença

Discreto entre seus contemporâneos, Fiódor Dostoiévski e Liev Tolstói, a prosa de Ivan Turguêniev é uma das mais belas manifestações literárias de uma época. Considerada a obra prima de Turguêniev, Pais e Filhos foi escrito entre 1860 e 1862, período de profundas transformações na estrutura socioeconômica russa, como o fim do sistema de servidão e a redistribuição de terras, além do surgimento de novos tipos sociais, frequentemente associados ao movimento da intelligentsia, a geração que ascendeu na década da publicação do livro. O enredo desenrola-se em torno da chegada do jovem Arkádi na propriedade seu pai, acompanhado de seu amigo e mentor Bazárov. Os dois reclamam-se niilistas, o que impacta em uma série de conflitos ideológicos e familiares, colocando em xeque as crenças de duas gerações.  

O principal trunfo de Pais e Filhos é a apresentação dos impactos sociais que afetaram a sociedade russa na esfera da vida cotidiana por meio do embate ideológico entre gerações intelectuais das décadas de 1840 e 1860, e como essas transformações desenvolvem-se nas relações privadas do âmbito familiar, uma vez que esses homens eram ligados por parentesco. Turguêniev evidencia o impacto do plano maior, como as decisões estatais na superestrutura e no plano menor, com as relações culturais e familiares. Paralelo a isso, o autor analisa a influência ideológica de uma nova geração de pensadores, filhos dos conservadores das décadas anteriores, na esfera das reformas estruturais. 
 

A crítica certeira destina-se à intelligentsia russa, grupo ligado à atividade intelectual, mais precisamente aos homens que viviam por sua ideologia. Para isso, Turguêniev maneja o livro o aprofundando em termos literários: em profunda humanização de suas personagens. A complexidade da psiquê é apresentada por meio das inquietações narradas em onisciência. Os recursos empregados por Turguêniev  revelam as contradições intrínsecas ao espírito humano, provando que o homem — como categoria — ultrapassa definições de limites ideológicos. As complexas personas de Pais e Filhos tornam-se desse modo, inevitavelmente, mais do que tipos que surgem na sociedade russa. 

 A crítica à intelligentsia russa alcança seu ápice na personagem principal, Bazárov, defensor do niilismo. O termo, retirado da filosofia corrente na época, denomina a crença na necessidade de destruição das instituições sociais, sem necessidade de reconstrução, uma vez que essas são vistas como falhas. No posfácio à edição brasileira de A véspera, romance de Turguêniev publicado pela editora Boitempo, é afirmado que o niilismo de Bazárov é uma realização do ceticismo na pessoa supérflua. Sendo assim, Bazárov é colocado como oposto de Insárov, radical revolucionário efetivo e herói de A Véspera —romance que Henry James considerou triunfal pela comunhão entre realismo e idealismo. 


Em Pais e Filhos, os conflitos surgem mais da combinação de personagens complexos com ideologias opostas ao que pela construção de um enredo elaborado. Uma das maiores contradições se dá pela oposição entre o niilismo de Bazárov e sua paixão por Anna Serguéievna, o que revela sentimentos intrínsecos à natureza humana. Já em Árkadi, é possível ver a figura do jovem que segue a ideologia de seu mentor com devoção, mas sem conhecer as implicações dos ideais, como o próprio Bazárov pontua: 

[…] você procedeu de modo inteligente; não foi feito para a nossa vida amarga, áspera e solitária. Não tem audácia, nem fúria, mas a coragem dos jovens e o entusiasmo dos jovens; para os nossos fins isso não serve. Fidalgos como você não conseguem ir além de uma nobre resignação ou de um nobre fervor, mas isso não adianta.  

 
As personagens femininas fortes, recorrentes em Turguêniev, como Elena de A Véspera, também se destacam em suas crenças, na independência e no orgulho. Mais do que pano de fundo, as transformações sociais estão embutidas na trama da obra em diversas passagens que denotam os impactos nas situações das posses e dos bens dos “pais” de Pais e Filhos. Para além, são expostas as falhas dos intelectuais da intelligentsia, em sua falta entendimento dos conflitos camponeses e das camadas populares que tanto defendiam. 

Pais e Filhos revela o esforço de Turguêniev para esmiuçar o contexto de transformações da sociedade russa, permeado pelo embate ideológico entre diferentes gerações intelectuais, de modo que os novos homens difundem seus ideais a fim de uma Rússia que implemente reformas estruturais, possibilitando uma classificação social menos rígida e desigual. Todavia, a complexidade psicológica e a humanização das personagens, são responsáveis por elevar o sentido da obra literária ao máximo.  

Ivan Turguêniev acreditava que a arte literária é uma esfera dotada de autonomia, princípios e estilo próprios, opondo-se ao esforço de elevar o papel histórico da literatura nas transformações sociais, defendido pelo mais proeminente crítico literário russo de sua época, Bielinski, a quem Pais e Filhos obra foi dedicado. Nos romances de Turguêniev, vemos a plena realização da obra literária que ultrapassa o papel de veículo ideológico, ainda que contexto social e enredo sejam tão estritamente ligados em suas obras quanto a relação entre pais e filhos.  

PAIS E FILHOS

IVAN TURGUÊNIEV 

TRAD. RUBENS FIGUEIREDO

Companhia das Letras/2019

R$ 59,90/39,90

344 p

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Publicado por Giovana Proença

Taubateana de 2000. É pesquisadora na área de Teoria Literária na USP. Tem textos sobre livros e literatura publicados em jornais como Rascunho, Estado de Minas e O Estado de S. Paulo Ver todos os posts de Giovana Proença