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A ironia do autor evoca a impossibilidade de se existir algo tão dramático: a reversão trágica daquelas expectativas criadas na vida social
Bruno Pernambuco
Com O Rei Lear da Estepe, Turguêniev sugere a sobreposição de dois mundos incomunicáveis: o poder real (a intriga dentro da coroa, que em sua trama envolve destinos de um povo e de suas ideias), e a vida camponesa russa (de quem em suas obras mais famosas, o autor tanto se aproxima e ao mesmo tempo foge), assolada pelo frio e pelo conformismo. Sem sentimentos excessivamente complexos, ou na presença constante desses, sem uma elaboração sua, nem em lírica, nem muito menos em palavra comum, dessa que se pode gastar usualmente dirigindo-se aos outros, mas que na sua simplicidade, às vezes, revela algo de importante.
Revelando a proximidade, a obra, também, desvela o sarcasmo: se poderia dizer que essa distância entre os universos é apenas aparente, que a ambição pelo poder, a traição familiar, a disputa pelo dinheiro se apresentam, de algum modo, como formas universais por meio dessa narrativa deslocada. Mas a ironia é o recurso utilizado para descrever tudo aquilo que se passa nesse rincão russo por excelência, tudo que cabe ao mundo de juventude desse narrador que nos apresenta o Rei Lear sem poderes e sem mando sob qualquer pessoa que conheceu na fazenda de sua mãe. É possível vê-la diretamente nas impressões do narrador, conforme ele descreve tudo aquilo que envolve a figura de Kharlov — seu porte cômico, e um tanto desumano, sua propriedade, pobre, cinza, mas cheia de expectativas, as personagens de sua família, frígidas e belas, patéticas e cruéis —, mas também percebê-la na composição da obra, na incongruência com que os eventos se seguem, na sobreposição de figuras trágicas e cômicas, espalhafatosas e desanimadas, na forma como, em certos momentos, as personagens parecem repetições de si mesmas.
A tragédia familiar de O Rei Lear da Estepe não é exatamente catártica como seria a de seus posteriores, os dramas realistas de Tchéckov. Ao contrário, a ironia de Turguêniev aponta para um outro sentido, evoca a impossibilidade de se existir algo tão dramático. Essa reversão trágica daquelas expectativas criadas na vida social, num lugar como esse fim do mundo dentro da estepe, de uma vastidão e de um desterro físicos, mas também mentais e espirituais.
Nessa obra se faz, verdadeiramente, uma paródia que não é apenas uma paródia de uma obra de Shakespeare. O Rei Lear da Estepe, afinal, é um livro povoado por personagens de depois de Shakespeare, conscientes — mesmo que não tenham sido avisados do fato — que estão sendo julgados sob a cria de um verdadeiro autor ocidental, que são reflexos de um mundo para o qual suas tramas e ambições — contadas à sua maneira particular, com seus trejeitos, confusões familiares, relações ambíguas são considerados rústicos, primitivos, repulsivos, ao mesmo tempo que, por meio da destruição da emoção embaciada dessa sociedade culta e civilizada, são, através de seus grandes autores, elevados ao mais alto patamar de elaboração artística. A escrita de Turguêniev, aqui, nunca abandona um riso irônico, rido no canto da boca, para a “luz salvadora” a ser trazida pela cultura europeia, mas ao mesmo tempo nunca solta inteiramente a mão dessa, e nunca a pena se entrega a seus personagens com uma sinceridade completa.
Para além da dimensão do relato histórico, de uma história do pensamento, da reflexão da alta sociedade de uma época, e de seus intelectuais, o senso de humor de Turguêniev tem simplesmente de ser admirado. Suas cenas, suas complexas situações elaboradas pelo autor e amarradas na sua narrativa, são engraçadas por seu absurdo, em sua apresentação simples, direta, na obra; são engraçadas quando se compara sua patetice, a inimportância e arrogância delirante de seus personagens, à perfeição formal do drama shakespereano; são engraçadas, se não só para completar a regra da tríade alexandrina, porque também muitas vezes se perdem, à maneira dos alexandrinos largados e desnecessários, dentro dessa digressão formal desse olhar irônico, pomposamente e dita elevada — tudo feito, claro, com a maestria de quem sabe fazer da perda a trilha dentro de sua floresta, e que sabe fazer da confusão do leitor efeito cômico, conduzindo, tão somente, aquele que se deixa ser confundido. Numa elaboração perspicaz, engenhosa, cheia de reviravoltas, de vida, e com um humor irônico que lhe atravessa, Turguêniev consegue, em o Rei Lear da Estepe, sintetizar ao menos parte do autor que se vê constante e forçadamente sintonizado em mundos distintos, e com isso faz uma novela deliciosamente sarcástica, uma paródia no mesmo nível de suas obras mais conhecidas.

O rei Lear da estepe Ivan Turguêniev
Tradução de Jéssica Farjado
Editora 34
136pp