Apesar da ceia nada tropical, do calor infernal, dos parentes sem noção, das diferenças sociais cada vez mais gritantes, eu tinha a dona Lucinda por perto.

Maria Paula Curto *

Detesto Natal. Ok, podem me julgar, me chamar de insensível, fria e calculista. Tudo bem. Aprendi a lidar com isso. Não ligo mais. Já me torturei no passado, tentando me encaixar nesse momento de felicidade plena que dezembro traz consigo. Decididamente, não é para mim. Principalmente neste país em que as diferenças sociais ficam ainda mais gritantes. É gente saindo do shopping lotada de sacolas cheias de presentes, passando ao lado – e ao largo – de gente pedindo um prato de arroz com osso e pelanca. Não há Papai Noel que dê conta disso.

Por falar no bom velhinho, fiquei ainda mais decepcionada com o tal do Natal quando descobri que o vermelho da roupa do Noel foi determinado por um dos maiores ícones do mundo capitalista: a Coca-Cola! E vocês ainda vão me dizer que essa é uma época de fraternidade e solidariedade? Para quem, cara pálida? Talvez para o bolso de alguns – geralmente os mesmos – que já enriquecem bastante ao longo dos demais meses.

Vocês também podem alegar que esse é o momento de celebrar o nascimento daquele que se faz carne para falar ao homem sobre amor. Lindo, muito bonito mesmo. O ponto é: e quem se lembra, de fato, do aniversariante? Se lembrasse, não seriam os shoppings que ficariam lotados nesse fim de ano, mas os abrigos, os becos, as fendas…

Decididamente, a alegria de dezembro não é para mim. Principalmente neste país em que as diferenças sociais ficam ainda mais gritantes. Reprodução/Arionauro Cartuns.

Outros dirão que esse é tempo para união das famílias, de juntar os parentes que moram longe e agradecer juntos pelo ano que passou. Agora, de verdade, olha aqui no fundo da minha lente – ou melhor, no fundo dessa página – e me diz se você pensa assim mesmo ou se você já fica fazendo cara feia só de lembrar de ter que aturar aquele tio que fala cuspindo – e você já não era fã desse carnaval dos perdigotos muito antes do coronavírus – ou aquele cunhado que bebe todas e faz a mesma piadinha do pavê (é pra ver ou pra comer? Hahahaha…que saco!) desde 1998… Confessa, vai! Fora aquelas famosas perguntas de sempre, que mais parecem questionário do censo demográfico: “Você não se casou de novo? Separou faz tempo, né? E os filhos? Não teve? E a dieta? Adiou novamente? Precisa fazer exercício, não é mesmo? Essa barriguinha não estava aí no ano passado. Continua fazendo bico? Não achou emprego em multinacional, não?” Só para eles soltarem as pérolas dignas de comercial de margarina: “Meu filho se casou com a filha de fulano e estão morando numa cobertura nos Jardins (ou na Barra, no caso típico do carioca “moderno”). Minha filha terminou o MBA em Yale e vai morar em Genebra, com o marido trader. A beltrana fez uma lipo, contratou um personnal trainer e agora, aos 55, o povo não dá mais de 30 para ela, impressionante…” E por aí vai.

Eu me sinto como no Poema em linha reta, de Fernando Pessoa: só eu que sou ridícula??? Não, não me casei de novo, continuo super encalhada, trabalhando como PJ numa empresa brasileira com muito orgulho, não terminei o doutorado e trago comigo 10 quilos a mais do que o chamado peso ideal. Também não posso mais dar tchau com o braço estendido, pois a movimentação de ar é tão grande, que mais parece um Boeing pronto para decolar de Congonhas… E só para constar, eu ainda não tinha feito 50 e me perguntaram mais de uma vez se eu era mãe de uma amiga de 43!  Tenho ou não motivo para odiar dezembro?

Outros dirão que esse é tempo para união das famílias, de juntar os parentes que moram longe e agradecer juntos pelo ano que passou. Me diz se você pensa assim mesmo? . Reprodução/Wesley Samp.

Tem ainda outro ponto. Com dezembro, vem o famoso verão, delícia de uns, inferno de outros, como eu, que derretem no caminho entre o quarto e a cadeira do home office. Acordo empapada de suor, sem vontade de nada, um ser pela metade, já que a outra desmanchou na madrugada e grudou no lençol. Nojento. Fala sério: Quem pode gostar de calor??? Liga o ar-condicionado? Tá de brincadeira, né? Esse, coitado, virou um mero objeto de decoração, pelo menos enquanto continuarmos com os valores exorbitantes da tarifa de energia. A escolha é simples: derreter para conseguir pagar IPTU, IPVA e todos os Is de janeiro (outro mês complicado, mas esse fica para um outro momento). E nem posso reclamar, pois, pelo menos, isso é um sinal de que tenho teto e carro. Poderia ser muito pior. Eu sei. Então, que venha o derretimento!!! Mas eu não preciso gostar do verão, preciso?

Ah, e eu quase ia me esquecendo. A ceia de Natal. Aquele mundaréu de comida na mesa. E tudo extremamente adequado para a temperatura do nosso verão tropical. Afinal, nada poderia ser mais perfeito para um cardápio natalino a 40ºC a sombra, do que comer nozes, castanhas, avelãs, peru (tem carne mais seca e sem graça? Me diga?) ou tender. Panetone também é super refrescante. Por mim, comeria apenas bolinho de bacalhau com rabanada, gelada, de sobremesa e estaria mega satisfeita.

Fala sério: Quem pode gostar de calor??? Até o Papai Noel não aguenta. Reprodução: Leo Correa/AP.

Esse dezembro vai ter um gosto ainda mais amargo. Porque apesar da ceia nada tropical, do calor infernal, dos parentes sem noção, das diferenças sociais cada vez mais gritantes, eu tinha a dona Lucinda por perto. E ela não era qualquer mãe. Não mesmo. Uma mulher à frente do seu tempo, dona de uma inteligência extremamente aguçada (apesar do horror à matemática), uma beleza ímpar (eu tinha que puxar ao meu pai, né?) e um respeito pelo outro que eu nunca vi igual. Se dezembro era difícil com ela, dessa vez, vai ser quase impossível. Mas eu sei que vai passar. Vai passar. E que outros dezembros virão. E que esse buraco que dói nas entranhas e vaza pelas minhas bochechas vai diminuir. Até eu entender que ela me faz falta em todos os meses do ano…

*Maria Paula é carioca, mãe e mestre em filosofia pela PUC-SP.