Caroline Barbosa

Crédito da imagem: “Tudo é sonho / improviso impermutável e a impossibilidade de ser”, Manuela Navas, 2025
A pesquisadora e professora Saidiya Hartman, ao traçar os contornos da fabulação crítica, tem como um dos seus objetivos elaborar uma biografia coletiva dos cativos e cativas e dos sujeitos negros no pós-escravidão. Segundo Carla Beatriz de Almeida, o uso da biografia coletiva, também conhecida como prosopografia, remonta ao século XVI. Ela é definida como um método que busca, dentro da História e das Ciências Sociais, “definir uma população a partir de um ou alguns critérios e estabelecer assim uma descrição bibliográfica cujas nuances possibilitarão traçar um perfil de sua dinâmica social, privada, pública, cultural, ideológica ou política”. Nesse sentido, a pesquisa de vidas individuais se torna mote para pensar a totalidade de um grupo.
Na obra Vidas Rebeldes, Belos experimentos, de Hartman, há o destaque para as narrativas individuais de jovens que viveram durante a virada do século XX. Por meio delas, uma janela se abre para a biografia de outras jovens que não figuram no arquivo historiográfico, mas que viveram na mesma sociedade e, assim, passaram, de forma geral, pelos mesmos cerceamentos e discriminações que as jovens retratadas.
Para convocar o leitor a refletir sobre essa coletividade e ir além das vivências pessoais, Hartman faz uso do coro, esse conjunto de vozes que aparece em itálico ao longo da obra, fazendo menção a romances, músicas, relatos de autos prisionais e outras formas documentais que se destacam da história individual e assinalam aquilo que ecoa na existência de outras meninas:
”E como qualquer artista sem nenhuma forma de arte, ela se tornou perigosa” ( Trecho do romance Sula, de Toni Morrison, utilizado por Hartman)
”Se pudesse sentir profundamente, ela poderia ser livre” (Trecho de Sister Outsider, de Audre Lorde, utilizado por Hartman)
Aqui me interessa pensar os sentidos do uso do romance como um dos recursos utilizados pela autora para estabelecer o procedimento que se esvai do individual e convoca um grupo de sujeitos negros. Como pensar a escrevivência nesse cenário? Em trabalhos diversos das ciências humanas o neologismo é utilizado como ferramenta epistemológica por estabelecer relações com experiências comuns de ser negro, mas na literatura há um trabalho estético que vai além do anseio de retratar o real.
Há um movimento contínuo de aproximação e distanciamento da perspectiva autobiográfica, que nos leva a refletir o que a noção de biografia coletiva, pensando a partir de Hartman, pode levantar sobre o termo. Isso porque na escrevivência o elemento factual nem sempre está atrelado às vivências pessoais do autor, mas sim a uma experiência coletiva dos sujeitos negros. Será que é a isso que Hartman se refere quando usa os romances como um dos recursos para elaborar o coro?
Isso me leva, nesse momento da pesquisa, a mapear essas obras romanescas utilizadas por Hartman e observar se é possível pensá-las na chave da escrevivência, uma vez que elas auxiliam na especulação acerca das vidas dessas jovens. Nesse jogo, uma espécie de imaginação biográfica parece estar em cena, o que pode levar a uma percepção da escrevivência para além de recurso documental, sendo sua própria forma próxima da fabulação crítica.