Caroline Barbosa

Crédito da imagem: “Conversaciones no. 2”, de Giana de Dier, 2023.
No artigo, Vênus em dois atos, ao traçar as características do seu método de escrita, a fabulação crítica, a pesquisadora norte-americana Saidiya Hartman indica que gostaria de realizar uma biografia coletiva, em que transformaria “o exorbitante em exemplar”. Ela argumenta que os registros acerca das vidas dos sujeitos negros durante a escravidão ignora a subjetividade e o cotidiano desses indivíduos. São arquivos que remontam ao “encontro com o poder”, ou seja, nomes em um caderno comercial, anotações no diário de um feitor e processos judiciais, muitas vezes relacionados à perda do que era considerado apenas mercadoria. Isso é o exorbitante: o arquivo que sujeita a individualidade apenas à violência. O tornar exemplar, segundo o argumento da autora, é efeito da fabulação crítica, pois através de estratégias como a especulação e a complexificação do que está nas bordas do arquivo, Hartman reformula a exorbitância criando outras maneiras de compreender as vidas engendradas pela violência.
A partir dessa interpretação de Hartman, busquei investigar, numa comunicação apresentada recentemente no Congresso de Pesquisa realizado pela UFBA, a noção de biografia coletiva e a maneira como ela é tratada na História e na Literatura. A ideia de uma biografia coletiva me interessa porque pode se tornar um mote para compreender como as experiências individuais podem também apontar para uma coletividade.
Em Vidas Rebeldes, Hartman analisa diversas fontes históricas para investigar a vida de jovens que saíram dos campos do sul na direção do norte dos Estados Unidos na virada do século XX, no pós-abolição. A estudiosa quer ampliar a maneira como podemos conhecer a existência dessas jovens, questionando e especulando sobre os registros que as relegavam ao lugar de criminalidade. A dimensão dessas vidas que não foi registrada e não pôde ser contada é fabulada como experimentos de liberdade, que sugerem não uma subjetividade específica, mas apontam para a possibilidade de ler dessa maneira um coletivo de jovens em busca de seus direitos.
E na literatura, como seria possível pensar esse deslocamento do pessoal para o coletivo? A narradora de Cartas a uma negra de Françoise Ega, que compartilha com a autora dados biográficos, escreve sobre suas percepções da vida, seu cotidiano, sobre as interações com colegas, também migrantes da antilhas, e sobre o trabalho de faxineira em Marselha, na França, após ler um perfil de Carolina Maria de Jesus e se identificar com as situações vividas pela escritora brasileira.
No livro de Ega, acompanhamos, ao longo das cartas, o relato que se debruça sobre momentos de satisfação vividos ao lado de sua família, o prazer experimentado por ela em dias ensolarados, as conversas com a amiga Solange e a tranquilidade que lhe dá uma caminhada na volta para casa. A dor está presente no relato crítico sobre o comportamento dos tantos patrões para os quais trabalhou ao longo da vida, nas humilhações compartilhadas e na injustiça do sistema, mas sua vida é mais que isso.
Embora minha intenção na comunicação fosse tematizar as noções de exorbitância e exemplaridade utilizadas por Hartman, quando comentei o livro de Ega, selecionei apenas trechos que remetiam a um lugar de violência: Ega defendendo a amiga Yvonne dos desmandos de uma patroa abusiva e suas reflexões acerca das jovens antilhanas que vão cheias de sonhos para a França, mas são obrigadas a lidar com empregadores sádicos e com a ausência de oportunidades fora da esfera doméstica. Mas, como disse, a narrativa se detém também nos detalhes, no cotidiano, nos quais a narradora está vivendo e contando uma vida, sua vida.
Será que a alegria crítica de Ega não pode nos oferecer um caminho para pensar uma coletividade de mulheres negras que sorriem, apesar de?