Caroline Barbosa

Créditos da imagem: Silencio n.2 / tudo o que me liga a você, Manuela Navas, 2025

Na obra As filhas de Safo, Selby Wynn Schwartz discute as sexualidades dissidentes a partir da vida de mulheres que viveram entre o final do século XIX e início do século XX. Elas eram escritoras, pintoras, cantoras e atrizes, em sua maioria. Assim, somos levados a conhecer nomes que revolucionaram a Europa, como Lina Poletti, Rina Faccio, Anna Kuliscioff, Sibilla Aleramo, Virginia Woolf e Natalie Barney. 

Juntas, elas constroem um coro no qual a própria narradora em terceira pessoa se insere. A figura que rege a obra é Safo, uma poeta grega que viveu na Ilha de Lesbos durante o século 6 a. C. Schwartz vai apresentando Safo para o leitor por meio dos fragmentos que restaram de sua obra: “nós vivemos/ … oposto … / … audácia”. As personagens buscam interpretá-la, traduzi-la, mas também emulam o modo de viver conhecido por meio dos fragmentos dos poemas, pois lutam contra a patologização da sexualidade e contra as leis que cerceiam seus direitos.

Vislumbramos parte da história do século XX por meio da vivência dessas mulheres: as grandes guerras, a ascensão do fascismo, a luta pelo direito de votar, a colonização e as tensões da modernidade, por exemplo.  E também vamos nos aproximando paulatinamente de suas singularidades:

Mas Ada Bricktop Smith também aprendeu coisas que nunca saberemos: como era pintar o rosto de preto quando, na verdade, ela já tinha a pele preta, por exemplo, só para ganhar a vida cantando canções de menestréis para entreter os sulistas brancos.

Nós a convidamos para ir à casa  de Natalie Barney lanchar sanduíches de pepino, mas ela sorriu com discrição e disse que estava muito ocupada. Verdade que um dos nomes de Ada Bricktop Smith era rainha.

Schwartz  menciona Vidas Rebeldes, Belos experimentos de Saidiya Hartman em uma nota bibliográfica para comentar o uso que a pesquisadora americana faz da lógica coral de composição. Hartman escreve a vida de jovens negras que se deslocavam do Sul para o Norte dos Estados Unidos em busca de condições melhores de vida. Mas nem tudo o que deseja descobrir é encontrado na intensa pesquisa que realiza. É nesse contexto que sentenças,  que aparecem em itálico ao longo da obra, formam um coro, para dar voz àquelas mulheres sobre as quais tão pouco se sabe.  Schwartz afirma que a lógica coral de que lança mão é diferente, pois em Hartman, o coro ressoa as vozes das mulheres “sem nome”, mas As filhas de Safo são personagens reais.  

A coralidade é o elemento que me impulsiona a aproximar as duas obras.  Ambas partem de figuras factuais para descrever vidas em seus contextos históricos, mas fazem uso de termos como personagens e narrador e fabulam criticamente o que não pode ser verificado, mobilizando um arquivo de fontes documentais. Me interessa, então, especular o papel que esses procedimentos têm para a desestabilização das fronteiras entre o referencial e o ficcional.