Monkeys/Andy Warhol

Subitamente o macaco parou! Todos prenderam o fôlego. Ninguém sabia o que estava acontecendo. Teria ele desistido? Esquecido? Acabado? Zé se afastou da máquina e sentou-se

Leonardo Saad, Especial para Fina

– É isso mesmo, não tem sequer um erro gramatical! 

Quase toda a cidade já se encontrava na praça e aquele animal seguia escrevendo inabalado pela comoção que estava causando. De dentro do grupo de observadores surgiu um homem gritando, era o Dono do pequeno zoológico local. 

-Que porra vocês estão fazendo com meu macaco! Vem cá agora Zé! Eu tava te procurando por toda cidade! 

O macaco, assustado com os gritos do Dono, se afastou meio metro da máquina de escrever. A cidade toda prendeu o ar. Teria isso interrompido o transe criativo daquele escritor exótico? O Professor se aproxima do Dono e tenta acalmá-lo: 

-Você não pode levar ele, não agora. Olha! Ele estava escrevendo isso, estamos presenciando a reprodução de uma obra prima, o Zé está escrevendo a Odisseia. 

Confuso com a afirmação, o Dono leu as folhas que o Professor havia lhe entregado. 

-O Zé está escrevendo isso? 

O Professor acenou com a cabeça. Zé ainda olhando apreensivo para o Dono, se aproximou cautelosamente da máquina de escrever e a lentos toques ele voltou a datilografar. O Dono observava seu primata de estimação, seu zoológico nunca tinha tido tantos visitantes quanto ele via naquela praça. O Zé tinha todo esse talento? Esse animal estupido poderia lhe trazer uma fortuna. 

Aquela situação seguiu por horas. O macaco escrevia em ritmos irregulares, em certos momentos permanecia parado olhando para a máquina de escrever como se pensasse qual seria a próxima palavra que datilografaria, em outros apertava as teclas como se estivesse conduzindo uma sinfonia, quase como se fosse possível escutar os agudos gemidos das cordas de um violino tocando o Presto do Verão de Vivaldi. A notícia se espalhou rapidamente e pessoas de todos os lugares do mundo já ocupavam a praça em busca de um breve vislumbre daquele inusitado recital. 

Jornalistas da BBC, CNN e mais outros milhares de acrônimos exibiam aos quatro cantos do mundo “O Macaco Escritor”. Tropas do exército brasileiro faziam a segurança do animal impedindo que qualquer observador importuno pudesse interromper o fluxo de criatividade daquele artista. Aquela pequena cidade do interior paulista nunca havia recebido tantos visitantes de uma única vez, talvez houvesse mais visitantes naquele único dia do que em toda a história daquele lugar. Dentro do círculo protegido pelos soldados estavam apenas quatro indivíduos, o Assistente, que desde o início fazia a substituição das folhas, o Dono, cuidando de seu querido primata talentoso, um Especialista tradutor de Homero, que lia meticulosamente cada nova página escrita a fim de verificar a qualidade daquela versão, e claro, o Macaco Zé, com toda sua capacidade artística direcionada àquela Odisséia. 

O mundo inteiro observava enquanto marinheiros eram transformados em porcos ou fugiam de ciclopes, enquanto sereias tentavam maravilhar um herói de ouvidos fechados. Os dedos de Zé regiam um teatro ao ar livre que impressionava a todos. Os biólogos a uma distância segura e imparcial, tentavam explicar aquele comportamento anormal, os católicos, por sua vez, já sabiam a explicação: era uma mensagem, um milagre divino, mas divergiam entre si sobre o que ela significaria. Outros acreditavam tratar-se de uma conspiração: aquele animal era um experimento foragido de illuminatis que tentava transformar macacos em seres humanos a fim de provar a falácia da evolução. Já os matemáticos diziam se tratar de uma coincidência estatística, se um macaco clicasse eternamente numa máquina de escrever, em algum momento ele acabaria escrevendo a Odisséia de Homero, tivemos apenas a sorte de presenciar isso sem que fosse necessário uma eternidade. Quanto mais o tempo passava, mais improvável era aquela reprodução impecável e mais impressionante se tornava o feito de Zé. 

Subitamente o macaco parou! Todos prenderam o fôlego. Ninguém sabia o que estava acontecendo. Teria ele desistido? Esquecido? Acabado? Zé se afastou da máquina e sentou-se. O Assistente pegou a última folha e entregou ao Especialista que leu aquela última página observando cada vírgula e ponto que compunha o texto. 

-É a Odisséia! Perfeita! Cada palavra… está perfeito, eu não poderia ter feito uma tradução mais perfeita que essa…. Como? 

As palmas das milhares de pessoas ao redor assustaram Zé que correu se aproximando do Dono. Sem pensar duas vezes o Dono colocou o macaco em uma jaula e ordenou que um funcionário pegasse a máquina de escrever e o livro. O funcionário, com a máquina embaixo do braço, se aproximou do Especialista que lia aquela obra magna. Este puxou o livro para próximo de seu corpo antes que o empregado pudesse alcançá-lo. 

-Vocês não podem pegar o livro! Isso precisa ser estudado. 

O Dono esbravejou de longe: 

-O Macaco é meu, portanto o livro também é meu. Se você quiser estudar ele vai ter que comprar de mim. 

– Mas pera ai! Essas folhas em que ele escreveu são minhas – disse o Proprietário do supermercado. 

-Não todas! – exclamou a Moradora da Casa Número 12 – As primeiras são minhas!

Percebendo-se alheio a uma discussão que também lhe cabia o Assistente, que ainda estava sentado, levantou de supetão e proclamou 

-Pois e eu? fui o assistente do animal esse tempo todo! Tem parte do meu trabalho nesse livro 

– Se você tivesse escrito o livro todo ninguém ia ligar – respondeu o Dono – porque você acha que agora que ajudou a trocar umas folhas seu trabalho tem algum valor?! 

-O trabalho dele tem valor e o meu também – falou o Professor municipal – Eu que descobri que era a Odisséia, merecemos algo. 

-Você é um professor de escola pública que por sorte percebeu que era a Odisseia, mas o macaco ia escrever do mesmo jeito você estando aqui ou não.

– O trabalho deles pode até não valer, mas eu analisei a obra inteira – disse o Especialista – O MEU TRABALHO EU SEI QUE TEM VALOR. E me pagam muito bem para fazer isso. Se eu não for ficar com essa obra para estudá-la, o mínimo é que eu seja muito bem remunerado pelo que eu fiz. 

– Eu não quero saber que porra você acham! O macaco é meu então o livro é meu! 

E aquela discussão seguiu por horas. Quem teria o direito à obra magnífica de Zé?