Monkeys/Andy Warhol
Foi assim então que ficou resolvido, todos satisfeitos, ou não, a lei havia determinado. O espetáculo havia acabado
Leonardo Saad, Especial para Fina
Era necessário levar o caso ao judiciário, porém ninguém queria sair do lugar com medo de que o livro fosse roubado, e assim, para resolver o problema, o judiciário foi até a praça. Com as câmeras e olhos curiosos voltados para aquele tribunal ao ar livre todos escutaram à um juiz imparcial decidir aquilo que, claramente, seria o melhor para o bem coletivo.
-Primeiro a máquina de escrever. Esta foi encontrada na praça, portanto é um bem público e será enviada a um museu. Quanto ao livro, o caso é claro, o dono da obra é o macaco, e o dono do macaco é o Dono do Macaco, portanto o dono da obra é o Dono do Macaco! Mas não sejamos injustos, essas pessoas tiveram também algum papel nessa criação artística. Alguns mais, outros menos, mas todos devem ser remunerados de acordo com o trabalho oferecido. O Assistente merece um valor por suas 16h trabalhadas que seja proporcional a um salário mínimo. Portanto deve receber R$103,90. Já o Proprietário e a Moradora devem receber proporcionalmente à matéria prima que providenciaram, e claro pelo serviço de entrega. Pelas 116 folhas seriam R$4,29 para o Proprietário do mercadinho, porém não se compram folhas separadamente, portanto serão R$19,90 para ele. Já a Moradora da Casa Número 12, entregou folhas avulsas, poderíamos até qualificar como uma forma de doação, mas para não sermos injustos você receberá R$0,43 pelas 11 folhas. Mas não pensem que é apenas isso! Cada um dos dois receberá também R$6,95, pela entrega, um valor de acordo com o mercado, claro. O Especialista, como o próprio nome diz, é uma especialista, portanto deve receber proporcionalmente a sua especialidade. Ele receberá 9 mil pelos serviços, mas caso queira estudar a obra terá que pedir uma cópia ao Dono do Macaco. Por último temos o Professor, que infelizmente é um funcionário público e estava prestando um serviço para o bem público, afinal trata-se de um momento histórico. Um funcionário público não pode receber mais dinheiro por já estar fazendo seu trabalho, mas saiba que seu nome provavelmente será lembrado pelos livros de história.
Foi assim então que ficou resolvido, todos satisfeitos, ou não, a lei havia determinado. O espetáculo havia acabado e a plateia foi se dissolvendo aos poucos, alguns interessados ainda seguiram Zé rumo ao zoológico na esperança de que o animal pudesse novamente revelar um brilho de extraordinariedade. Nos dois primeiros anos que seguiram o acontecimento a cidade permaneceu como um polo turístico, visitantes de todo o Brasil, e também alguns outros locais do mundo, vinham conhecer a famosa Praça da Odisseia e Zé o Macaco Escritor, que faria jus ao nome não tivesse se aposentado do cargo depois a primeira experiência literária. Desde que voltará a jaula nunca mais tocou a máquina de escrever, por mais que o Dono insistisse e deixasse o objeto a todo momento com Zé. Ainda que o homem tentasse o macaco não escrevia nada substancial, alguns métodos de persuasão eram amenos, e outros eram violentos, desde afagos e refeições especiais até choques e dias sem comer. Todos esses esforços eram em vão, pois ao tocar as teclas aquela besta babuínica batia concebendo apenas um punhado de balbuceos bastante banais. Entre uma infinidade de letras aleatórias surgiam algumas palavras de pouco significado ou valor. Mesmo não conseguindo extrair mais nada de valioso daquele animal, a única obra escrita por Zé tinha tornado o seu dono um homem extraordinariamente rico. “A Odisseia de Zé” original se tornou a obra mais cara a ser vendida em um leilão e seus exemplares foram um grande best-seller nos primeiros anos após o ocorrido. O zoológico vazio, exceto pelo macaco, ainda rendia uns trocados dos tradicionais viajantes, mas aquilo já era um negócio menor para o homem tão abastado que havia se tornado o Dono de Zé.
Passados mais alguns anos, essa curiosa história foi se apagando frente às notícias cada vez mais interessantes, mostradas nas telas de computadores e televisões. Se não fosse os registros encontráveis nos confins da internet poderia-se pensar que aquilo não havia passado de um delírio, um delírio coletivo de todos que imaginaram um macaco escrevendo um livro ou um delírio de um macaco que havia imaginado o que aconteceria caso decidisse dar um simples toque naquele curioso objeto humano. Mas aquilo realmente aconteceu e desapareceu do interesse público em um curto período de tempo. Restavam apenas alguns poucos que ainda estavam cativados por aquela história, alguns cientistas que queriam uma explicação lógica para o ocorrido. O Dono de Zé, ainda desejando extrair qualquer resto financeiro daquela moribunda fonte, vendeu o animal por não mais que R$1200.
Zé, em novas jaulas, não trouxe nada de novo para os aficionados cientistas que, por meio dos mais diversos experimentos e exames neurológicos, descobriram se tratar de apenas um macaco ordinário. Talvez eles tenham demorado tempo demais para analisar o animal e a genialidade dele evaporou durante os anos. Em um último esforço científico decidiram abrir-lhe o cérebro e ver se assim conseguiria encontrar uma explicação lógica para aquele feito tão espetacular, mas aquela massa de tecido rosado e flácido não tinha nada de espetacular. De Zé restaram órgãos preservados em laboratório e o corpo empalhado que foi enviado para junto da máquina de escrever no museu nacional logo antes do incêndio ocorrido lá.