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Mar21

Maria do Rosário Pedreira

Tenho a  sensação de que este é o tempo das mulheres. Uma boa novidade (se eu não estiver do meu lado, quem estará?), mas por vezes, infelizmente, mais forçada do que natural e mais porque tem de ser, e não porque é. Se numa lista de prémios literários não constam obras de mulheres, há logo um grande sururu; mas pôr lá um livro de uma mulher só por ser de uma mulher, convenhamos, é um erro tremendo, se o livro não merecer a distinção. Um dia destes, o organizador de um festival literário mandou a lista dos autores que queria convidar para eu reencaminhar aos  dois ou três que publico e dela faziam parte. Um deles (homem) aceitou o convite, mas fez notar à organização que faltavam mulheres na lista e que era melhor tomar medidas desde já, antes de lhe cair em cima o Carmo e a Trindade... Bem, não podemos de facto prolongar a velha situação em que as mulheres eram constantemente esquecidas ou convidadas de segundo plano, mas também convém ser coerente e não andar a dar prémios à toa só por causa do sexo do escritor ou da temática feminista das obras (voltarei a isto em breve para falar de uma obra específica cuja premiação achei realmente discutível). Em todo o caso, nem sempre é assim, e é muito bom ver que Presidente da República de Portugal substituiu a cadeira vazia de Eduardo Lourenço no Conselho de Estado por Lídia Jorge, talvez a escritora contemporânea que mais tem reflectido sobre os problemas da actualidade e que melhor expressa as preocupações dos intelectuais em relação a uma sociedade sem leitores, mais agressiva e menos empática. Uma pensadora inteligente, culta, coerente e com um discurso que é uma chamada de atenção urgente para quem governa e que pode e deve tomar medidas que salvem o País deste «analfabetismo» estrutural. Aplaudo e agradeço.