Machado de Assis – Dom Casmurro I

Capítulo I – Do título

[…] Não consultes dicionário. Casmurro não está aqui no sentido que eles lhe dão, mas no que lhe pôs o vulgo de homem calado e metido consigo. Dom veio por ironia, para atribuir-me fumos de fidalgo.

Sobre o apelido Dom Casmurro.

Capítulo VII – Dona Glória

[…] Tenho ali na parede o retrato dela, ao lado do marido, tais quais na outra casa. A pintura escureceu muito, mas ainda dá idéia de ambos. Não me lembra nada dele, a não ser vagamente que era alto e usava cabeleira grande; o retrato mostra uns olhos redondos, que me assombrava em pequeno. O pescoço sai de uma gravata preta de muitas voltas, a cara é toda rapada, salvo um trechozinho pegado às orelhas. O de minha mãe mostra que era linda. Contava então vinte anos, e tinha uma flor entre os dedos. No painel parece oferecer a flor ao marido. O que se lê na cara de ambos é que, se a felicidade conjugal pode ser comparada à sorte grande, eles a tiraram no bilhete comprado de sociedade.

Sobre o retrato de seus pais.

Machado de Assis

Dom Casmurrro é um retorno de Machado de Assis à narração em primeira pessoa; Bentinho\ Dom Casmurrro é o personagem – narrador que tenha “atar as duas pontas da vida, e restaurar na velhice a adolescência”. Á primeira vista, o romance parece girar em torno de um provável adultério: Bentinho é casado com Capitu; desconfia que Ezequiel, o filho, seja de Escobar, amigo do casal; o ciúme doentio de Bentinho leva á dissolução do casamento. Entretanto, isso serve apenas de pano de fundo para a confecção de brilhantes perfis psicológicos e análises de comportamento.