Machado de Assis – Dom Casmurro V
Capítulo LVI – Um Seminarista
[…] Eis aqui outro seminarista. Chamava-se Ezequiel de Souza Escobar. Era um rapaz esbelto, olhos claros, um pouco fugitivos, como as mãos, como os pés, como a fala, como tudo. Quem não estivesse acostumado com ele podia acaso sentir-se mal, não sabendo por onde lhe pegasse.
[…] Quando ele entrou na minha intimidade pedia-me freqüentemente explicações e repetições miúdas, e tinha memória de guardá-las todas, até as palavras. Talvez esta faculdade prejudicasse alguma outra.
[…] Eu, seduzido pelas palavras dele, estive quase a contar-lhe logo, logo, a minha história. A princípio fui tímido, mas ele fez-se entrado na minha confiança. Aqueles modos fugitivos cessavam quando ele queria, e o meio e o tempo os fizeram mais pousados. Escobar veio abrindo a alma toda, desde a porta da rua até ao fundo do quintal. A alma da gente, como sabes, é uma casa assim disposta, não raro com janelas para todos os lados, muita luz e ar puro.
[…] Não sei o que era a minha. Eu não era ainda casmurro, nem dom casmurro; e o receio é que me tolhia a franqueza, mas como as portas não tinham chaves nem fechaduras, bastava empurrá-las, e Escobar empurrou-as e entrou. Cá o achei dentro, cá ficou, até que…
Dom Casmurro – Machado de Assis