05

Jan12

Maria do Rosário Pedreira

Por razões que não são para aqui chamadas, ando a ler muita coisa sobre Amália e o fado. Não sou uma leitora voraz de biografias, confesso – estou sempre mais inclinada para a leitura de ficção e tenho um defeito estrutural que se chama falta de curiosidade, sobretudo no que toca a vidas de pessoas reais. E, porém, gosto muito de ouvir uma pessoa a falar de si própria e de descortinar quanto de ficção e de verdade existe na construção do seu discurso. Talvez por isso não tenha conseguido saltar páginas no livro de Vítor Pavão dos Santos, Amália – Uma Biografia, que reproduz na primeira pessoa um relato da vida da fadista a partir de vinte e cinco conversas com o autor que, deliberadamente, excluiu do texto todas as suas perguntas e intervenções. Temos, assim, Amália a falar de si desde que nasceu como se fôssemos visitas privilegiadas de sua casa ou um psicoterapeuta atento aos dramas e traumas da sua existência num consultório da capital. E, ao lê-la deste modo – como se de ouvido colado às suas palavras –, podemos entender melhor a rapariga que foi e a mulher que se tornou, com todas as suas fragilidades, complexos e até vaidades, que, já se sabe, não há grande estrela que as não tenha. Eu, que admirava a grande senhora sem simpatizar com ela, senti-me por vezes psicanalista a detectar sinais que justificam alguns seus comportamentos e acabei por render-me ao lugar-comum de que a infância determina realmente muito do que somos e, no caso de Amália, isso é gritante. Com o fado a festejar a sua «entrada» no Património Imaterial da Humanidade, uma sugestão de leitura a ter em conta.