Atemporal, obra de Bandeira reverbera na literatura contemporânea

Bruno Pernambuco

A função da antologia é questão aberta, infinitamente discutida, muito opinada. Debate-se se é possível elaborar algo que seja de uma minúcia completa em relação ao autor que é estudado, uma seleção  que, mesmo que reduzindo a realidade, seja fiel às mutações que atravessam uma obra poética extensa, às alterações criadas pelo tempo no estilo, nas opiniões, nas formas, nos detalhes do olhar sobre a matéria da poesia. 

Há discussões sobre como os cortes, inevitáveis, devem ser assumidos de forma autoral por quem organiza a obra, traçando novos sentidos, formando uma criação poética, musical, a partir da descontextualização dos poemas- e, ao mesmo tempo, persiste um questionamento se algo da complexidade singular que é a obra completa de um autor, fechada da forma que é, com suas intenções e também com aquilo que foge ao plano deliberado de seu artista, não é inevitavelmente traído nesse processo. 

No caso de uma antologia elaborada pelo próprio autor dos versos, essa encruzilhada ética é bem menos ameaçadora. Sabe-se, aí, que o presente tem um poder de ação muito menor sobre o que ficou decidido- e, como acontece, felizmente, no caso dessa Antologia Poética de Manuel Bandeira, reeditada pela Editora Global em 2013, esse alívio pode se transformar em um espaço criativo. A edição, coordenada por André Seffrin, age em detalhes, sem adicionar àquilo que foi elaborado pelo mestre pernambucano mais do que pequenos registros, bem colocados, que valorizam aquela poesia que é apresentada.

É tentador enxergar essa edição como uma “caixa branca”, um museu seguindo as regras contemporâneas, expondo com indiferença suas peças- sem mácula, mas condenando cada uma à petrificação em seu tempo inerte, passado. Mas esse não é bem o caso. A organização, da forma como é pensada, deixa que os poemas falem com verdade, e com uma simplicidade enganosa na sua honestidade- pois cada poema retroalimenta aos outros, revela novas faces de seus companheiros, nas diferentes escolhas que foram feitas em si, nas alterações sutis do ritmo, no diálogo das imagens, que se tangenciam sem resolver-se uma na outra. A simplicidade culta de Manuel se faz ainda mais tocante.

Esta Antologia ilustra bem, nessas suas sutilezas, a história mencionada pela primeira vez no Itinerário de Pasárgada, em que Cecília Meireles, diante da indecisão, do simpático ceticismo, natural, do amigo poeta lhe diz (reunindo aí, na sempre inocente segunda pessoa do plural, a geração dos modernistas- mas bem se pode imaginar esse “todos nós” incluindo a todos os leitores que, ao encontrar a lírica inusitada, irônica e precisa, têm uma transformação dentro de si, têm despertadas as suas próprias reflexões) “Você não sabe o quanto a sua poesia é importante para todos nós”. Trata-se de um volume direcionado inteiramente à poesia, menos preocupado em apresentar diretamente os registros históricos, os acontecimentos precisos da vida do poeta- mas, mesmo assim, ilustrando-os com retratos, do próprio Manuel e edições passadas de suas obras, valiosíssimos. 

O conjunto, todo, dessa elaboração dá força à poesia, alimenta a “poesia-menor”, de musa bissexta, como certa vez Manuel definiu seu gênero de escrita. O encontro dos poemas faz reverberar aquilo que é dito, amplifica a busca presente na Estrela da Manhã, as cinzas de Carnaval, que, nesse diálogo interno entre as obras do poeta, já são uma transformação, linguística, formal, sentimental, da Cinza das Horas

A seleção poética, que perfaz diferentes fases do autor, funciona como um registro da maturação da técnica, de sua conquista do domínio pleno do material e das formas do seu trabalho. Essa elaboração, que às vezes atinge a perfeição de uma forma irônica, inesperada, ou capaz de reverter tudo aquilo que está posto, se mostra nas revoluções de Libertinagem, que traz O Cacto, Porquinho da Índia e a Evocação do Recife; na musicalidade que pauta o Ritmo Dissoluto; na procura, interna, pelo beco, ou pelas mulheres dos Sabonetes Araxá, na Estrela da Manhã. Num excerto da fase posterior do poeta, a ironia na Canção do Vento e da Minha Vida, até ao momento de “A vida ficar cheia de tudo- aquilo que o vento levou embora”. A construção lírica simples, com o desdobramento da frase em múltiplos sentidos, é uma qualidade que Manuel compartilha com outros grandes autores.

Não é claro se uma antologia poética é um início ou uma conclusão, se é feita em nome dos leitores- como um convite, uma porta aberta para conhecer aquela poesia que poderia ser vasta em excesso e ameaçadora sem um caminho, mesmo que simples, trilhado para guiar a caminhada- ou em nome do poeta, como uma parte de sua memória, uma celebração de seu nome, de acordo com o que o tempo e a sensibilidade, mesmo que derradeira, definiram como mais importante. A bem da verdade, é na mistura desses dois elementos, nesse papel ambíguo, que as antologias poéticas encontraram seu lugar na vida literária brasileira, como introdução de tantos leitores, iniciantes ou já versados no básico de seu objeto de leitura, e desejando um olhar livre, sincero, ao rés do poema, a incontáveis referências, parnasianas ou contemporâneas, modernistas ou heróicas. No caso de uma edição como essa, elaborada por seu próprio autor, e que o agradava por incluir coleções de poemas que estavam ausentes em outros compêndios, e por, nas suas palavras “conter aquilo que, em cada livro, parecia representar melhor a sua sensibilidade e técnica”, há de se aproveitar o convite para esse olhar, para a sua multiplicidade, para a congruência de sentidos contidos em um único poema e também para a forma como se desenha uma passagem do tempo dentro da variedade estilística, lexical e temática das obras de diferentes tempos Um encontro com a poesia nobilíssima e certeira, sarcástica, simples, e sentimental, de Manuel Bandeira é uma viagem inesquecível, e essa Antologia Poética, como foi pensada por seu criador, não finda em oferecer bons companheiros para a travessia.

Antologia Poética

Manuel Bandeira

Ed Global

R$ 65,00