Por Neila Brasil Bruno
O leitor dos livros de Adriana Lisboa já se acostumou a encontrar em suas histórias citações de outros autores ou de parte de suas obras e vidas, como acontece em Rakushisha com o poeta japonês do século XVII, Basho.
Um beijo de colombina é marcado por sua relação com o clássico Estrela da Vida Inteira de Manuel Bandeira. Adriana Lisboa brinca com a relação entre ficção e realidade criando um texto que menciona os poemas e a biografia do escritor modernista. Para tanto, aciona um narrador que ao relatar o desaparecimento de sua namorada Teresa, acaba reconstruindo a trajetória literária de Bandeira.
O romance gira em torno da história de Teresa, uma escritora que pretendia escrever um livro a partir dos poemas do poeta modernista. O narrador é um professor de latim que tenta compreender o desaparecimento súbito da namorada. Atormentado pela perda, ele mergulha na vida da escritora e na obra do poeta para tentar compreender o que aconteceu.
Prosa e poesia estão imbricadas na estratégia de constituição do romance de Lisboa que se apropria e reescreve alguns elementos característicos da poética do autor modernista. Os capítulos recebem títulos extraídos dos poemas que pertencem ao livro Estrela da Vida Inteira e em maior ou menor grau, muitos deles evocam as poesias de Bandeira.
Um exemplo bem claro desse processo ocorre quando o narrador descreve o seu primeiro encontro com Teresa: “A primeira vez que vi Teresa, reparei nas pernas. Achei estúpidas. Mais curioso ainda, achei que a cara parecia uma perna” (LISBOA, 2015, p. 16). Assim, a personagem do poema passa a personagem do romance.
Ainda em Um beijo de Colombina é possível identificar remissões a fatos da vida do poeta que, muitas vezes, serviram de mote para seus poemas, como o famoso “Itinerário de Pasárgada”, que, por sua vez, em 1954, se transforma em uma espécie de autobiografia literária.
Um beijo de colombina é construído como uma rede de citações em ação, para falar como Antoine Compagnon. Segundo o crítico belga, “Quando cito […]Há um objeto primeiro colocado diante de mim, um texto que li, que leio[…]” (Compagnon, 1996, p. 13). Assim, a escrita de Lisboa, sua reescrita da obra de Bandeira é também um relato de sua experiência de leitura dos poemas do autor, uma leitura de autor.