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Querer saber por que te matei? É porque nunca me senti bem com pacote que me venderam: trinta dias de sol para cada eternidade lavando banheiros

André Vieira

Da janela da cozinha ouço as crianças brincando, lá fora. Desde que se foram, os ladrilhos brancos da cozinha azulina permanecem quentes e secos, como se a brisa do mar que vem da sacada se recusasse a tocá-los com seu hálito de maré do meio-dia. Soa o relógio: o molho pomodoro borbulha, a galinha no forno assa, o rádio a pilha apita e meu marido descansa esquálido entre azulejos azuis da parede e os ladrilhos-nem-tão-mais brancos do chão. Hora de passar o café e verter o pudim.                                                                              

O outono, assim como você, querido, veio sem avisar. De tempos em tempos, lembro de te fazer um chamego, de te chamar para a hora do chá e te pôr no pedestal das atenções de todos: filhos, maridos, madrastas, comarcas; de minhas esperanças frustradas e minhas mangas esgarçadas, de meu vento engarrafado e meu tempo perdido: um refresco da velha infância. Nem lembro quando, comondeporque te conheci, mas desde que você me tomou pra si, pouco mais me importa a hora ou local; a maresia anuncia que você se aproxima. Boto a concha na orelha, ronrono meia dúzia de palavras, e desperto da vida em transe.                                                                                                                                 

Mas a pilha da louça continua imunda, as unhas rasgadas, a garganta seca e as garrafas cheias e o cinzeiro repleto pelas cinzas de mais um dia perdido, ou mais uma noite maldormida. E eu no meio.  Vagueio com os olhos nas vagas vagas da água, à espera-espreita do movimento em falso, do arrebatar repentino, da violência domar os instintos e os ímpetos acariciarem a chegada da cheia na areia. Mas respostas vêm de imediato: Cadeiras vazias, guarda-sóis atolados, carrinhos abandonados; a solidão de palitos de chicabom espetados no meio de castelos de areia.                                                        

Querer saber por que te matei? É porque nunca me senti bem com pacote que me venderam: trinta dias de sol para cada eternidade lavando banheiros, remendando meias, enchendo de gordura perus de segunda, dizendo que a vida vai melhorar, que o vermelho não virá pela caixa do correio, que na próxima entrevista será por e-mail, que a pirâmide de cervejas é só mero acaso do desemprego, e que os remédios nunca me fizeram efeito. No final das contas, nos tornamos o que sempre tememos: papai & mamãe.                                         

Mas não mais terei direito a sonhar além dos quadros negros e das reuniões de pais, não mais buscarei a perfeição do corpo e a satisfação da alma, não mais verei a vida com meus olhos, a comida com minha boca, e as roupas com meu capricho; não mais pensarei em outra alternativa além daquela à minha frente: não mais andarei pela estrada rota de placas tortas à procura de respostas, nem poderei dizer que realmente te amo, que lhe abrigo, confio e confidencio. Compartilharemos, apenas, a solidão de bolhas de sabão que escapam da máquina de lavar quebrada na hora de se deitar– e seremos gratos a elas.                                                                                                                      

As memórias de nossos anos mortos se emaranham no cacheado preso no elástico preto: motéis baratos, ônibus lotados, apartamentos abandonados, cerveja barata & parentela insossa. Agora descansam no chão branco manchado pelo vermelho do seu peito; agora sacodem a poeira das lápides que já tínhamos plantando; agora borbulham, como as panelas nesse momento, de fervor e felicidade metálica; agora desaguam na onda que cai no horizonte. Agora, eu e você, Adenor, habitamos o apartamento da lembrança, na esquina do desassossego, na rua das frustrações, da cidade de ex-peranças, no país da saudade: agora, Adenor, nossa única diferença é que no meu coração ainda bombeia sangue.                                                                                                            

Mas deixemos isso de lado. O que passou, passou, e não vale a pena se lamentar pela bagunça da cozinha ou a falta de comida nos pratos. O que vale é fazer com que as crianças não sigam nossos passos: que vivam aventuras, alcancem estrelas e vençam a própria morte; que tenham cuidado em escolher os seus, prudência em viver a vida, e admiração pelo próprio medo; e que, finalmente, se tornem pessoas boas, com empregos dignos, cozinhas limpas e barrigas cheias.                                                                                        

Afinal, a vida é uma grande xícara de café amargo, de pó remoído e esquecido, só tolerável pela lembrança da páscoa de infância: crianças batendo perna com ovos desembrulhados, a televisão ligada no talo, a coca-cola estourando ao fundo, batatas e bacalhau sobre a mesa.

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Publicado por André Vieira

Jornalista gaiato e poeta-menor. Escrevo pequenas notas e algumas reportagens quando a missão vem à baila e engano — bem — na arte milenar do hai-cai fixo. Não gosto que cebolas toquem no purê de batatas. E sim, amigos, é bolacha e não bixxcoito. Ver todos os posts de André Vieira