Nos tempos de solidão entre meninos e meninas, de seus desejos, corpos e vidas, uma olhada no píer era um convite para um universo que ambos não entendiam.
André Vieira
Soprava um apito fino naquelas cercas brancas. Junto ao vento raspando áspero nas folhas, ciscavam os primeiros passos do verão. Tímidos sorrisos, pequenos sinos invadiam a casa da moçada tomada pelo picolé e pelo sorvete de creme-e-biscoito. Pingavam as primeiras gotas no asfalto, e delas as primeiras nuvens no céu celeste, embora fossem lágrimas de passar ligeiro e alegria clandestina: nasciam às cinco e se punham às sete, como toda criança travessa sem aulas ou lições de casa pra se enfurnar na escrivaninha solitária, não se sonhava enquanto vivia.
A única preocupação do dia, ou dias, era brincar de brincadeira ou jurar dever-da-de que não mentíamos, nem que a bola não era roubada, nem que a bárbie fora emprestada: que existia um oceano além daquele da tevê e que sim, sim senhor, acredito num homem que nunca vi, mas visito todo domingo. O horizonte corria a vida. Até os adultos, aborrecidos com o trabalho, com a casa, com a farda, com barulho e com baralho deixavam a rabugice na xícara, soltando uma careta para bolachas e vinham pintar o rosto com a inocência de tinta guache.
Podíamos pintar o sete, ir pros quintos, esquecer os terços e arruinar os quartos, que o bom-humor não se apagava, nem na metade rosa, nem no lado azul que — dizem — remove até arte de artista arteiro com a boca no tinteiro. Papel não faltava. Do bobo ao espertalhão toda tchurma tinha, principalmente quando montam barraca em casa e se acham donos do mundo em seus pequenos castelos. Soberania clandestina; governança passageira, legitimidade estrangeira: nas primeiras luzes da noite e os últimos gritos da janela — às vezes aos pares —, quando muito só restavam os primeiros habitantes daquelas terras sem lei de capim e concreto.
Tratamento de realeza era pra quem comia todo feijão e não pedia pra repetir o purê ou, por sorte, esquecia do ovo kinder no fim da refeição. Dos nobres alfafa, alçarão, alface, só sobravam os suspeitos de sempre ao molho mostarda: tomate, azeitona, tomatinho. A vergonha vermelha se via cruzar a mesa: “Não come verde, não vê sobremesa”. Para parar de passar vontade, o efeito era desbaratar pro enjoo: do nabos-repolhos-rabanetes quentes; ou da lorota de engolir terra, lamber areia ou cuspir barro — sempre seguido pelo temível vermiculo anual que passara pra semissemanal. Dona Benta nunca esteve tão difícil.
Fossem as batatas coradas ou os cotovelos ralados, o pós-sala quase sempre acabava em opereta estridentes: puxadas de orelha, belisquinhos e beliscões entre bolachas e pés-de-moleque ainda à mesa: tornando o castigo sempre mais doce. O calor só era tolerável nas casas de madeira. Distantes do centro e próximas aos lagos, só havia paz quando os pés tocavam o barro, e as boias e os trampolins, por vezes pneus desarranjados e tábuas de passar desapropriadas — leia-se, tomadas nos armários dos lares —, eram posicionadas para saudar mais uma tarde dourada.
Nos tempos de solidão entre meninos e meninas, de seus desejos, corpos e vidas, uma olhada no píer era um convite para um universo que ambos não entendiam. Palavras ignoradas, olhos compenetrados, lábios encaixados, mãos enlaçadas: se descobriam no desconhecimento alheio à inocência. A curiosidade vinha de casa: se virava mocinho e mocinha esticando o abraço e roubando o beijo. Mas, no rosto, o que valiam eram as bochechas marcadas e os olhos apaixonados: sabíamos o que era amor quando ouvíamos nos chamar tomar picolé ou quando a carta garranchada escorregava pela porta da frente e o irmão ou a irmã a escondia por inveja; ser mais velho implicava em ser mais paciente. E ser responsável.
Dos bicos e extras arrumados pelos mais velhos, viver de biscates queria dizer que as amizades ficavam para depois das seis. “Três, no mínimo, por vez” dizia o dono da bodega-padaria que vendia peixe fresco com as notícias esquecidas. “Pelos menos entregava as últimas quentinhas”, pensava comigo todo dia quando me furtava o ronco pra subtrair a míngua e guardar as novas, nas aulas das tardes. “Fiquei sabendo que no Boliche do Seu Apoliano, o Guaraná Champagne baixou pra um e setenta e seis; vamos lanchar no Quiosque Eduardo? Lá eles têm o tal de hot–dog com condimento americano.; Tio Constantino disse que quinta próxima vem pessoal do Norte pra première do Ciço: acho que descolo uma faixa no duro e na marra.”.
Tudo graças a freios, marchas, idas e investidas do guidão. Ainda lembro como eu corria: alamedas, avenidas, vielas, vias, atalhos estradas, bulevares, travessias; ruas. Sem saída. A memória é cortada pela imagem veloz das rodas na terra, na pedra, por baixo, por alto, na rua, no asfalto. Lembrança reticente de algo que tinha que ser ágil, passageiro, impaciente: entregava-se um pouco da vida para receber um pouco melhor — e ter o que nunca tivemos. Talvez, por crer que o trabalho lavrava a cara e dignava a alma; talvez, por aceitar que como os exemplos dos mais velhos, sempre teríamos mesa e casa cheias; ou talvez por acreditar que tínhamos criado asas nos pés e fôlego no peito para ganhar a vida com o próprio suor.
Fosse pelo olhar satisfeito da vizinhança ou as bênçãos esquecíveis dos confessores de dentro dos armários de madeira, conhecíamos o mundo montado nelas, prontos a içar voos longos, distantes daquela vida que ia ficando pelo caminho e pela estrada. E que hoje, cinco cépticas décadas depois, parece que nada disto começou: maioridade, faculdade, engajamento, casamento; filhos, vizinhos, quintal, jornal, dominicais, receitais, casais… Aposentadoria, nova moradia, sabedoria: alegria?
Desde que finquei os pés em casa, e criei raízes no bairro há duas quadras dos netos, o que tenho mais saudades é do movimento. A memória pode ser falha e a audição curta, mas se me concentrar um pouquinho — quase como alguém que se esforça pra apagar as velinhas — ainda conseguido sentir ela junto de mim, sentando no banco que viu minha infância, solado contra pedras e pedregulhos, fitas no guidão e buzina na esquina: “Manoel, não vem jogar bola com a gente, não?”. Podia jurar que ouvia um apito.
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