The Emigrant’s Last Sight of Home’ by Richard Redgrave (reprodução Tate)
Desde o último megaferiado, não havia mais tempo para se pensar no tempo; apenas em como inventar diferentes maneiras dele desaparecer
André Vieira
A hora teimava pra sair do pulso do menino e vir bater no centro da cozinha, ao lado dos pinguins descoloridos e acima dos imãs de geladeira caindo pelas tabelas: “por que minuto que a gente espera é sempre mais cruel?”. Se perguntava, encarando os segundos da tela da tevê-computador que o pai o dara mais cedo.
“Será que o pessoal sabe? E se se esqueceram, e se não se importaram, e se o Facebook, o WhatsApp, a mãe, o pai, o e-mail, o padeiro não se lembraram?” Teria que passar os quinze sozinho? Olhando pras árvores se debatendo contra o vento e os passarinhos fazendo ninho na varanda?.
A adolescência nascia em dúvida, e da dúvida germinavam os primeiros desejos de ser grande, de poder pôr fim à espera de toda uma vida: “ser dono do meu tempo”. Se contavam os dias para aquilo que não tinha data. Ou será que tinha? Desde o último megaferiado, não havia mais tempo para se pensar no tempo; apenas em como inventar diferentes maneiras dele desaparecer de nossas vidas, pensar em torná-lo menos indigesto nos temíveis cafés-almoços-jantas-em-família (tudo junto o tempo todo): “tem que distrair a cabeça: caderno, desenho, livro, videogame… o tempo tem que voar no céu pra depois agarrar ele com as mãos”.
Desvirava o olhar pra janela e sentia o vento tremular os cabelos negros e beijar o rosto moreno, queimado pelas exaustivas tardes de sol preso a si mesmo e de concreto frio que o reconfortava a cada entardecer. Mas o calendário ainda podia dizer alguma coisa, afinal: as nuvens engordavam e as calçadas suavam; e o frio batia à porta, junto com vento lhe que abria passagem em meio a folhagem escurecida e a barba recém-crescida. Assim como o sentimento engraçado, quase inquieto, quando falava com os amigos pelo Zap, via vídeos de bichos nos zoológicos e mantinha as aulas pelo Zoom: algo acontecia mais não sabia explicar, uma vida nova nascia mas não saberia identificar, “aonde eu me encontro nisso tudo? Como posso tomar o mundo se sou um prisioneiro das telas e um foragido no lar?.
As palavras ecoavam no vazio enquanto o chá era vertido na porcelana gelada guardada no fundo das gavetas. E para sobreviver, se inventavam eventos para preencher o vazio, principalmente quando a vida enjoava das grades das portas e pedia pelo afresco de janela. Corridas atléticas, compras pesadas, passeios distantes: mistérios nos rostos e gosma nos dedos.
O novo ritual para a sanidade dependia que reinventássemos a normalidade a cada novo passo dado, sobretudo quando se ficava mais velho e as calças ficavam apertadas. O menino sabia disso, e escondendo a felicidade que o consumia há semanas e marcava páginas em branco do caderno de matemática, ele jurava a si mesmo, com o coração bem apertado e o desânimo no rosto, que daquele dia em diante não se importaria mais com tudo aquilo: festa, balão, bolo de aniversário, guaraná estourando junto às risadas dos colegas. Felicidade era saber que a encomenda chegou à porta e que a foto do cachorro tinha sido compartilhada pela tia e pela avó; já a vida, esta teria que esperar para ser revivida. Naquele dia dez não seria diferente.
Despertou. Molhou o rosto. Lavou os dentes. Teve aula das sete e quarenta e cinco às doze e trinta e nove (porque o professor de física esquecera de passar a chamada, de novo). Engoliu uma omelete com salada. Leu meia página da Super jogada no sofá. Esqueceu da pasta e da escova. Cochilou com a barriga pra cima até às quatorze e sete. Jogou uma hora e quarenta e cinco com a irmãzinha puxando-lhe os cabelos. Viu que eram quatro e puxou o caderno de Estequiometria — sem reações —. Voltou pra Super da sala; lembrou que dia cinza não era novidade: vidrou no CandyCrush versão oito mil duzentos e dezenove, ponto um. Beta. Versão ilimitada.
Mas da varanda, entoava um megafone ao som de Ed Sheeran: “Joaquim, favor comparecer à varanda. Joaquim favor comparecer à varada”. Uma comoção se instalava nos andares de baixo e no térreo, donde a mães de pickapes proclamavam, em meio ao single chiclete, a presença do curumim aniversariante. Curiosos de máscaras e cachorros de coleiras se enfileiravam atentos na rua do picadeiro.
E se engana que os anos 90 tinham morrido. Até reviveram a Xuxa e o Cazuza. Nas palavras das maestras, frases que todo pai quer ouvir e toda mãe verte lágrimas; nas caixas de som, melodia do Pão Açúcar fraseado pelo Seu Jorge e sua fiel trupe de músicos. Haveria tempo em que essa miscelânea pudesse ser ouvida? “Felicidade é”, na apoteose, uma família de cinco e um sentimento unia por além das xícaras quebradas e pedidos quilométricos de Rappi, um sorriso jovial em meio a orelheiras pesadas e barrigas redondas: todos estavam ali. Amigos de longa data e vizinhos mal-intencionados, conhecidos de outros carnavais passados e desconhecidos bem-vindos, um eco se fazia ouvir no bairro inteiro:
Parabéns, Joaquim.
Desconhecidos
Três meses em dez anos.
Publicado por André Vieira
Jornalista gaiato e poeta-menor. Escrevo pequenas notas e algumas reportagens quando a missão vem à baila e engano — bem — na arte milenar do hai-cai fixo. Não gosto que cebolas toquem no purê de batatas. E sim, amigos, é bolacha e não bixxcoito. Ver todos os posts de André Vieira