Leia, clicando aqui, o início da A história de Elias.
Do lado de fora
Um fragor imenso vindo de algum lugar ecoou nos cômodos da casa acordando Elias. Era como se alguma coisa se quebrasse, e ele temia o que poderia ser.
MÃE!, ressoou na casa um grito desesperado.
Ele sentiu estremecer todo o corpo; e, num rompante, pulou da cadeira e correu em direção ao quarto. Empurrou a porta com força e deslizou a mão no interruptor e encontrou a filha aos berros: os olhos arregalados, as narinas muito abertas e aquela respiração estertorosa de bicho sufocado denunciavam todo o horror sentido pela criança. Sentou-se na cabeceira da cama e abraçou-a com força contra o peito. Mãe, mãe, quero mãe.
Calma, calma, nada de ruim vai acontecer a você, ele disse, e olhou para a janela num óbvio estado de dúvida.
Ele permaneceu abraçado à filha até ela desistir de chamar pela mãe e silenciar e dormir em seu colo. Por fim, depositou-a na cama, cobriu-a, apagou a luz, e disse Boa noite e saiu do quarto.
Quando ele voltou ao corredor, parou e ficou escutando o movimento do lado de fora. Silêncio absoluto. Tudo escuro. Olhou para a direita e viu a luz da vela chocar-se contra a parede. Passou a mão nas costas e lembrou-se do que o irmão fizera. Droga, ele disse.
Encostou-se na parede e foi deslizando até apoiar os cotovelos nos joelhos. Enxugou o suor da testa com as costas da mão e olhou para a esquerda e viu as barras luminosas sob a porta e as duas janelas. O dia começava a raiar. Um carro passou na rua. Ele esperou até que ele se fosse. Meio curvado, atravessou o salão tateando pelas trevas as cadeiras e foi até aporta e encostou ali o ouvido. Nenhum som em parte alguma.
Quando baixou a cabeça e suspirou, ouviu um barulho, como se uma porta ou janela tivesse sido escancarada à força. Prontamente, olhou para o corredor.
Continuou curvado e entrou no corredor e viu a sala de visitas na escuridão. Margeou a parede leste até a soleira e esperou. Um vento fresco e violento. Coração batendo forte de encontro à camisa. Colocou a mão nas costas como se dessa vez fosse surtir algum efeito diferente. É isso, ele pensou, lembrando-se da garruncha que ficava na pequena sala de grãos contígua à cozinha.
Ainda encostado à parede, esticou o pescoço e viu que a janela estava aberta e movia-se com a força do vento. Ele meneou a cabeça e disse Cristo. Pôs-se de pé, e quando estava um passo além do corredor, um vulto atravessou a janela e parou ali. Elias? ele perguntou.
Para trás, ele disse, e sacou o revólver e apontou para o homem.
Não atire, disse o homem, protegendo-se atrás da parede. Sou eu, Valter.
Valter?
O vigia, porra.
O que você quer?
Ele não respondeu.
O que você quer?
…
Um objeto atravessou a janela e caiu no chão com estrondo e desenhou uma parábola até parar nos pés de Elias.
O que é isso?
Uma pedra.
O quê?
Uma pedra embrulhada num papel, disse o vigia, aparecendo em frente à janela. A coisa que arremessaram contra a sua janela.
Elias deslizou a mão no interruptor e acendeu a luz. Olhou para baixo e balançou a cabeça e colocou as mãos na cintura. Acocorou-se, pegou a pedra, ficou de pé e jogou-a para cima e deixou que caísse na mão e repetiu isso mais três vezes. Uma pedra, ele disse, rindo, e apertou-a entre os dedos. Desculpe pelo susto, Valter. Você apareceu num momento ruim, foi só isso. Desculpe.
Sei, disse o vigia, e apontou com a cabeça para o revólver.
Ah, sim. O revólver. Ele ergueu o braço, apontou e apertou o gatilho. Clack. O vigia levantou as mãos e tropeçou para trás. Está sem balas, disse Elias.