Leia, clicando aqui, o início da A história de Elias.
O silêncio
Samuel foi o último a deixar a sentinela. Era madrugada e fazia frio. A lua minguante brilhava fina e tênue, assim como a luz falha dos postes. Com as mãos nos bolsos da jaqueta, desceu a rua pela calçada. A poucos metros, lembrou-se de uma frase e meneou a cabeça. O velório está bom, pensou. Vieram muitas pessoas. Cristo!, vieram muitas pessoas, ele disse, e riu.
Elias ficou parado diante da casa, como se esperasse alguém. Ele colocou a mão na boca e reprimiu um bocejo. Em seguida, enfiou a mão no bolso da camisa de botão, puxou o maço de cigarros, balançou-o, extraiu o último e colocou na boca, deixando-o ali entre os dentes. Livrou as duas mãos e procurou a caixa de fósforos nos bolsos da calça. Riscou o primeiro. O ventou o apagou. Riscou o segundo. Nada. O terceiro. Cabrunco! Última tentativa. Sucesso. Tragou com raiva e segurou a fumaça dentro da cabeça por um instante até expelir. Boa noite, disse o vigilante que circundava o quarteirão.
Boa, respondeu, mas, assustado, passou a mão nas costas para assegurar.
É melhor o senhor entrar e fechar as portas. É tarde e perigoso.
Elias acenou com a cabeça. Quando eu acabar, vocês vão soltar dentes pelo nariz, disse, mas somente ele ouviu isso. Acompanhou o vigilante com olhos e o viu sumir atrás da parede. Boa noite, ele disse, e caminhou até a casa, entrou e fechou a porta atrás de si.
A casa estava em silêncio; profundamente desprovida de movimentos ou sons. Tinha aquela calma opressiva da desocupação. Elias atravessou o primeiro cômodo e parou diante da porta, antes de abri-la sem fazer ruído. Ela ressonava em seu leito, tranqüila, quieta. Papai está aqui, ele poderia ter dito. Fechou a porta e seguiu adiante até o limiar do corredor. Tirou o cigarro da boca e deixou que ele escorresse entre os dedos. Olhou para vela acesa sobre a mesinha e o bruxulear da luz e as sombras que se agitavam em surtos espasmódicos, nas paredes e no teto.
Aproximou-se dela e admirou o rosto morto. O seu coração estava em pedaços, triste ante a contemplação da desgraça da esposa. Passou a mão na testa fria dela. Permaneceu parado por um bom tempo até cansar as pernas. Puxou uma cadeira, que outrora servira às visitas, tirou o revólver e colocou junto à vela. Sentou-se, imóvel, enquanto seu coração disparava, por um átimo, blasfêmias e condenações ao homem que destruiu a sua família.
Ficou assim durante alguns minutos, em silêncio. Então se levantou e recolheu o revólver e com passos ruidosos entrou na cozinha. Pegou as últimas lascas de madeira, colocou-as na boca do fogão, acendeu e pôs água para ferver na chaleira e se sentou à mesa. Sobre ela, garrafa e copos sujos. Esticou o braço e alcançou a garrafa e verteu o liquido escuro ao copo. Deve estar frio essa merda, ele disse.
Ele bebeu e devolveu o copo à mesa e o empurrou com força para longe. Arriou a cabeça sobre os braços cruzados, fechou os olhos e desmaiou.