06
Jul10
Maria do Rosário Pedreira
Não sou, como algumas pessoas que conheço, doida por Proust. Talvez porque tive de ler os primeiros três volumes de À la recherche… a mata-cavalos numas férias de Páscoa, metida na Biblioteca Nacional enquanto os meus amigos andavam a bronzear-se pelas praias, acho-o apenas extraordinário e, sim, tenho raiva dessa notável capacidade para, sem ser enfadonho, descrever uma igreja ou outra coisa qualquer em dúzias de páginas e associá-la a outras trinta mil coisas que a memória arquivou. Ao mesmo tempo, devo confessar que embirro ligeiramente com Marcel e que, nessas longas, longuíssimas, férias de Páscoa, pensei muitas vezes que lhe fizeram falta uns tabefes (e aqui estou eu agora a dar a face, ou mesmo as duas faces, por tê-lo dito). Ora, a minha mãe é muito dada aos detalhes (palavra que os revisores dizem que é galicismo e substituem sempre por «pormenores», muito mais feia) e, para dizer que atravessou a rua e foi ao Multibanco, conta absolutamente tudo o que viu, ouviu, sentiu, cheirou, supôs, pensou, concluiu… e ainda o que nem tem que ver com essa travessia, mas, por qualquer motivo, aparece naturalmente na conversa. Quando ela regressa de uma consulta médica, é um custo sabermos como está realmente a sua saúde. E, nesses momentos, o meu irmão mais velho, que é o mais impaciente de todos, costuma dizer-lhe: «Deixa lá o Proust e conta só o que interessa.»