10
Ago24
Patrícia
Há umas semanas decidi fazer a experiência de retirar, ou limitar, o glúten da minha alimentação. O primeiro embate não foi fácil e chama-se "pão", especialmente ao pequeno-almoço. O meu pequeno-almoço preferido é composto por torradas e café com mais ou menos leite, dependendo da necessidade de cafeína. Mas raramente fujo à minha torrada de pão alentejano (o único digno de usar "pão" como identificação). E de um dia para o outro (estas decisões têm que ser tomadas assim - um dia acordei e pensei para comigo "é hoje") fiquei sem pequeno-almoço. Depois de algumas sugestões e tentativas (odeio ovos de manhã, as crepiocas ou como raio se chamam, são boas, mas não é para todos os dias) fiquei-me pelos cereais (corn flakes, cenas de trigo sarraceno, tudo devidamente identificado com o "glúten free" da praxe) com leite ou iogurte. Ainda não tive tempo para explorar as papas de aveia mas também deve ser uma excelente opção. Mas continuo miserável sem a minha torrada de pão alentejano. O resto foi relativamente fácil. Pelo menos do meu lado. Nunca mais toquei numa bolacha, comprei massa sem glúten mas ainda não a experimentei - haverá tempo para isso- e comi três bolos desde que tomei a decisão: o bolo de aniversário dos oitenta anos da minha mãe, uma bola de Berlim sem creme no último dia de praia do ano (não sou fã, vou uns dois ou três dias por ano e já cumpri mais que a minha quota deste ano) e um bolo de cenoura num café e, na verdade, é este bolo que me leva a escrever este post.
Cada vez mais há pessoas que optam por deixar de comer coisas com glúten, seja por terem doença celíaca (que eu não tenho), por terem alguma intolerância ou simplesmente por quererem retirar esse componente da sua alimentação. Quem o faz tem extrema dificuldade em, por exemplo, tomar o pequeno-almoço fora de casa, comer qualquer coisa numa estação de serviço ou petiscar a meio da tarde. É fácil escolher uma refeição sem glúten (até as pizzarias já têm massa bastante aceitável sem tal coisa) mas não é fácil petiscar sem ele.
Não sou do género de ir tomar o pequeno almoço ao café mas passei a ter mais cuidado no trabalho: iogurtes, fruta e leite é algo que posso ter sempre por lá, por isso não é problemático (e assim, pouco os 2.05€ que gastava quanto tinha preguiça de preparar a minha fatia de pão para torrar). Mas no outro dia tive que ir tomar o pequeno-almoço ao café. Pior, não podia apenas beber qualquer coisa, tinha mesmo que comer (as razões para isso não importam, tinha que acontecer, café e comida) e apercebi-me que não há nada sem glúten numa pastelaria normal. Nada. Como é possível? Não há uma alternativa, por mais simples que seja. Pão, cereais, crepes ou panquecas, uns ovos mexidos. Nem fruta ou iogurtes existem na grande maioria das pastelarias desta vida. Impressionante. (e acho sinceramente que estão a perder uma oportunidade aqui)
Ontem, cheguei a uma estação de serviço esganada de fome. Eram 23h00 e pensei ir comer uma sopa quentinha (depois do dia que tinha tido, comida conforto era o que me apetecia e, à partida, esta não teria glúten) mas, obviamente, não havia. Porque raio é que a uma sexta feita de verão deveria haver comida às 23h00 numa estação de serviço da A2, em direcção ao Algarve? Claro que não, queres jantar comes a horas de jeito. A "meio da noite" (modo ironia, se ainda não perceberam) comes sandes, doces ou salgados e não pias. Todos têm glúten (nem que seja no pão ralado). Comi, pois claro que comi, mas sob protesto. E com uma certa tristeza e aquela sensação de oportunidade perdida.
Imagino que todos os que ousam ser ligeiramente diferentes na alimentação (e não só) sintam a mesma coisa, que o mundo não está feito para quem não encaixa exactamente na forma definida.
Já percebi que vou ter que puxar pela imaginação, deixar de depender do "vou petiscar qualquer coisa a qualquer sítio" (e isso não é fácil para mim que nem nas excursões da escola levava marmita) e tornar-me naquela pessoa que saca da caixinha com frutos secos e cenoura fatiada em qualquer sítio. Ainda me obrigam a emagrecer e tudo.
*frase que mais tenho dito nas últimas semanas. Sim, tenho noção que é um exagero do caraças mas deixem-me, pá, eu sofro sem pão, sabem?