05

Jun25

Maria do Rosário Pedreira

Na minha profissão, contra o que muita gente pensa, há imensas tarefas desagradáveis e burocráticas. Mas todas elas são claramente compensadas quando encontramos o texto de um novo autor que vale mesmo a pena. Se é um autor estrangeiro, já é bom; mas se se trata de um português, de preferência jovem, é ainda melhor. Foi por isso muito bom para mim, ao longo dos anos, pôr o nariz em alguns livros que nunca tinham sido lidos por nenhum leitor profissional antes de mim e que eu sabia que poderia ser eu a mostrar ao mundo em primeira mão. Mas também é uma alegria quando descobrimos um autor publicado por outra editora cujo livro de estreia lemos, pensando sempre como gostaríamos de ter sido nós os editores daquele livro (aconteceu-me, por exemplo, com o Bruno Vieira Amaral, que foi justamente quem «disse bem» do livro que trago hoje para aqui e que me levou a comprá-lo. Chama-se Lavores de Ana, escreveu-o Ana Cláudia Santos e é uma novela com uma estrutura nada ortodoxa sobre os trabalhos do amor em Nápoles, em dois períodos separados por alguns anos, vividos por uma mulher que é tradutora (o ofício coincide com o da autora) e os respectivos namorados, e também de algum modo sobre a vida posterior e anterior a esses relacionamentos italianos (factos e lembranças) em Portugal. A mão que escreve tem mão no que escreve e, apesar de a capa e o título não chamarem grandemente a atenção do leitor (lá estou eu a pensar que teria feito diferente), vale muito a pena conhecer esta nova escritora que, presumo, terá ainda muito para nos oferecer. Venha o próximo romance.