06
Jun25
Maria do Rosário Pedreira
ASTRO AMORTALHADO
Cansado, um rosto em chama
deseja o fogo que o consome,
e baixa os olhos para o lume
que arde, devagar, aos pés da cama.
No entanto, quem ateia esse lume
o peito lhe incendeia, em cinza
tornando o que dantes sentia
ser fogo brando da luz que nascia.
Não sabe o que trouxe essa luz:
mas um brilho alastra no mundo
com o fulgor profundo do astro
ao qual as nuvens, num último
esforço, consentem o seu rebordo.
Nelas se envolve, por fim, seco sudário.
Nuno Júdice, Livro de Caligrafia (1994-1995), prefácio de Ricardo Marques