(...) «Numa das tardes tristes e gris do Outono, quando no Luxemburgo as folhas das árvores voam, de modo que parecem bandos de aves migradoras e são as únicas asas que se vêem voar, recebi a visita de Mme Pothier e Mlle Pothier, respectivamente mãe e irmã da Surflamme.
Mme Pothier afivelara um ar de circunstância que notei logo ao abrir da porta. Era uma loiraça de 50 anos, rija, nada pot-au-feu, tipo desta dona francesa que tem um amante, ou vários amantes que jogam com o marido o zanzibar. Ângela -- uma rapariga alta, tipo Bar Olímpia, cheirando a léguas de distância a liberalidade das suas graças.
No meu gabinete, à sombra dos bonzos sardónicos, teve lugar o conciliábulo. Mme Pothier pigarreou, cilhou as mãos sobre o ventre e, após um minuto especulativo, proferiu:
-- Senhor Hilário Barrelas, não sei se vou ser importuna...
-- Serei...mas que remédio! É meu dever de mãe. Tenha a bondade de desculpar...
-- Minha senhora, sei com certeza que só haverá motivo para emboras...
Mme Pothier ajeitou-se mais confortavelmente na poltrona e volveu em tom dulceroso:
-- É a minha obrigação zelar pelo bem-estar de minhas filhas, não é verdade?
-- Não sofre dúvidas.
-- Olhe, senhor, têm sido a minha consumição! Louvores a Deus, Ângela está em vésperas de se arrumar e muito bem. Um senhor rico e considerado...
(...)
-- E vê, um homem que se enamorou das virtudes de Ângela, porque minhas filhas, senhor Barrelas, se não são formosas nem ricas, tiveram muito bons princípios...
-- Salta aos olhos da cara.»
(continua)