(...) «A nossa vida seguia o regular e consabido roteiro, com peregrinações pelos museus, galerias e velhas igrejas, e jantarinhos nos bosques, ao domingo, como parisienses da velha guarda. Hélia era a sempre mesma Surflamme, apenas mais turbulento o seu instinto contra a lei que tanto rege o finito como a eternidade.
À noite íamos a concertos e teatros, se não discorríamos por cabarets, onde a Revolução brama e não morde, e há cabeleireiras intonsas de poetas e bardos a admirar. A minha amada ardia ao canto profético de Xavier Privas e toda se derramava às imprecações de Montehus. No Caveau du Cercle, caiu apaixonada do belo Alfred de paixão que durou uma semana e de que ignoro os lances. Estava-lhe na índole continuar a dar-se pelo prazer, apenas, de se dar e em virtude do seu papel transcendente de difundir consolação. 
Ninette, que lhe penetrava o sentido de cada olhar, fitava-me com ar de dizer:
  -- Você sempre me saiu um palonso!
Mas eu perdoava, porque o que é preciso é cada um cumprir dignamente o seu mester. A Surflamme afadigava-se a cumprir o seu, que era de distribuidora de delícias. Que podia eu opor-lhe? Cabia-me o direito de torcer a sua sina?
Neste ponto Ninette era inferior, Ninette que desempenhava mal de áspide disfarçada em querubim.» ...

                                                                            (continua)