(...) «O meu viver com Surflamme prosseguiu no mesmo curso, cheio dos mesmos apetites e das mesmas dispersões. Ninette visitava-nos amiúde, parecendo-me ver nela uma certa inclinação por mim.

Um béguin filho, talvez, daquela deliciosa tara -- que a Surflamme me revelou -- de roubar os amigos às amigas.

Ninette era, ao contrário de Hélia, uma rapariga mimosa de carnes, bem moldada de quadril e seios, sensual, de sensualidade que eu via agitar-se-lhe nas narinas ao cabo dum jantar regado de vinhos velhos, ou duma passeata pelos campos. Às vezes, ao pé dela, sentia a vaga formidável do desejo selvagem adamítico, o desejo de bom quilate, marinhar por minhas carnes e entontecer-me. A Surflamme tolerava-a porque não era loira, e tinha para ela, com uma candidez de noviça, maneiras blandiciosas de gatinha. Eu adorava-a, porque me dava a exacta medida da tige fina e extra-humana de Hélia e porque as suas boas carnes ofereciam pasto à saudade, que às vezes se ateava em mim, dos troncos vacum-maciço das moças da minha serra.»

 (continua)