(...) «A Surflamme irradiava a propósito de tudo, por paixão, por piedade, por desfastio, porque o seu mester era distribuir-se como o sol. 
(...)
Em dia nostálgico, de céu a pingar lama, veio Ninette a rogo meu. Achei-a luxuriante como magnólia no tempo dos ninhos.
  -- Hélia?  -- inquiriu.
  -- Foi ver o avô à parvónia.
Tirou o regalo, tirou o chapéu, tirou as luvas, já nada ridícula, já nada desastrada. Dei-lhe a ler o meu bem de alma:
'Hèliazinha, quando os teus dedos rasgarem este sobrescrito, estarei muito longe da Montagne Sainte-Geneviève. Não te levo comigo porque tu estás tão integrada em Paris como o Sena e a Grande Roda. Mas nunca irei tão longe que, olhando para trás, não veja a luz que semeaste na encruzilhada do meu caminho. Surflamme pequenina, goza, ri, continua a deixar-te engolir pela vida e serás mais feliz do que eu, eu que bebo a vida por um rachado copo do absinto. Aí ficam, como ecos do que passou, estes Budazinhos sardónicos, todas as virgens góticas pasmadas, e o piano, numa tecla da qual a tua Petite Boiteuse coxeava. Contribui para a quermesse de Paris, de que milhões de almas, desde a alma divina de Sara à alma do pequeno marçano de Félix Potin (o da valse brune) fazem um monstro adorador e adorado. Um beijo do Hilário.'
  -- Então? -- interrogou Ninette.
  -- É para já a partida.
  -- Para onde?
  -- Berlim, Roma, a Grécia... Havemos de ver.
  -- E sozinho?
  -- Não, com uma rapariga deliciosa e confiada como as colunas do Panthéon.» ...
                                                                                     (continua)