(...) «A Surflamme, quando no crepúsculo da segunda tarde em que nos conhecemos tirou o chapéu, o espartilho e os sapatinhos sentada na beira da minha cama, não me amava por mim; amava-me na voluptuosidade que me ia dar. Não procurava a luxúria grosseira dos abraços, não; obedecia à tendência de se dispersar, de cumprir a sua obrigação de jucunda.
Foi, porventura, devido a isso que talvez eu a amasse; a sua parte mais nobre decorria do inconsciente, que eu tinha mesmo a impressão de sentir bater, como o volante pequenino dum relógio de pulseira. Todo ele era, aliás, um jardim viçoso onde ainda havia Adão e Eva e animais ferozes em liberdade. Se, devassando-o, adormeci nele, a culpa foi minha em não estar alerta.
Todos os seus movimentos, febres, nevroses eram vibrações harmoniosas desse inconsciente, cansado da vida reflectida e matemática do nosso mundo. O círculo que nos oprime, horas, espaços, necessidades, trazia-a mais magoada que o espartilho. Lembro-me ainda das suas revoltas contra o imóvel e o impossível, contra o dinheiro e a marcha lenta dos automóveis a 80 quilómetros à hora. Contra esse espaço rigidamente inalterável que separava a Place Sainte-Geneviève do Pavillon Bleu de Sainte-Cloud! Exclamava:  -- Porque havemos de ter este espaço a percorrer?!
Em mil anos as rapariguinhas como Hélia, radiosas e magnéticas, não terão esses espaços a andar; bastará querer, para o pensamento as conduzir celeremente às paragens do desejo como hoje as leva lá, de salto, em representação. O pensamento das Hélias do ano 3000 será uma liteira vertiginosa e confortável rolando fofamente no éter com as suas tiges insexuadas de sílfides.
Essa voz bárbara do inconsciente valeu-lhe a alcunha por que passámos a tratá-la. Vaidosa, julgava-se a fada do fogo e era a chama do pensamento. Nietzsche criou o super-homem, eu encontrei já feita a surflamme.» ...
                                                                           (continua)