Já estou estarrecido, e aliás há um bom tempo, com o quanto as questões ligadas à linguagem, e em particular à língua portuguesa, são sistematicamente maltratadas pela nossa imprensa de modo geral. Digo a grande imprensa, não alguns bons e bem intencionados sites, revistas e colunistas, gente que discute de modo amplo, científico ou minimamente sério a natureza complexa, polimorfa e dinâmica da linguagem.

O fato é que essa gente é exceção.

O que tenho visto desde os anos 90, especialmente com a relativa popularidade que ganhou o programa Nossa Língua Portuguesa, da TV Cultura, é a disseminação do “Fenômeno Pasquale”: a tendência das mídias – impressa, televisiva e  radiofônica – terem lá o seu Supergramático de plantão, para iluminar os pobres mortais usuários do idioma sobre o que é certo e o que é errado no “bom falar lusitano”. Um insistente interesse em reforçar a vertente normativa, prescritiva da língua.

Não poderia ser diferente, uma vez que a indústria midiática não dá voz aos estudiosos que queimam suas pestanas surpreendendo-se com os lances curiosos, os volteios mágicos e caprichosos dessa “donna mobile” que é a língua (qualquer língua, não só a nossa, diga-se de passagem), mas sim a meros reprodutores da norma padrão, pessoas contratadas para mostrar ao cidadão que ele pode ser capaz de “melhorar” seu modo de falar, bastando apenas que siga atento o que indicam as lições.

Sim, é uma verdadeira autoajuda linguística o que se vê difundido por aí. Nesses meios, ninguém discute sequer a variabilidade do que é considerado certo e errado. Ninguém discute que falar e escrever são coisas muito diferentes. Ninguém dá um toque para o espectador/leitor/ouvinte de que aquele português normativo é coisa de uma gramática específica – importante, claro, mas limitada, restrita. Ninguém diz (isso é quase inimaginável) que há pontos polêmicos entre os autores das gramáticas, que eles não têm muita certeza em relação a uma série de aspectos do idioma. Sobretudo, não se discute nesses programas ‘pasqualinos’* o que considero central: a norma padrão é algo construído arbitrariamente, ou seja, algo definido num momento histórico, por um grupo de pessoas, por um tipo de relação com a linguagem, ou seja, por uma cultura.

O recente caso do livro Por uma vida melhor, de Heloísa Ramos (distribuído pelo MEC, através do Programa Nacional do Livro Didático para a Educação de Jovens e Adultos, a 484.195 alunos de 4.236 escolas), que questiona a ideia de correção linguística, pôde, nos últimos dias, revelar, perfeitamente, o comportamento da grande imprensa quando o assunto é o ensino e o debate sobre o nosso idioma.

No rádio (na Jovem Pan, por exemplo), ouvi jornalistas esbravejarem contra o que, equivocadamente, consideram um “vale-tudo” do ensino do português. Um descaso com o trabalho do MEC, da autora, da academia. Um descaso. E um ato de irresponsabilidade. Na semana passada, uma aluna minha, assustada, veio dizer que, pelo que pôde entender no noticiário, agora ninguém mais aprenderia gramática na escola. Sim, de fato, o modo costumeiramente apocalíptico (sensacionalista) com que a imprensa aborda alguns assuntos produz esse tipo de interpretação.

Inevitável pensar que, mais de um século depois da cultura oratória simbolizada por Rui Barbosa, a qual valorizava a solenidade e a formalidade como valores em si, o jornalismo da grande imprensa – justamente ele, que tantas vezes se diz a voz do povo e tanto se diz reivindicador da democratização da expressão – representa, em certo sentido, o que há de mais atrasado em termos de debate cultural. Num momento em que dezenas de livros didáticos (inclusive por indicação do MEC, e isso há mais de uma década) e mesmo gramáticas  incorporam em seu discurso os avanços trazidos pela Linguística, relativizando a noção de certo e errado e propondo debates ricos e mais amplos que o mero correcionismo linguístico, tratar a língua (a escrita e a falada) no Brasil como algo estanque soa vergonhoso, de um amadorismo e de uma falta de informação que deveria envergonhar os redatores. Por isso digo que o jornalismo das grandes mídias brasileiras – muito mais do que a escola ou a academia, como se costuma pensar – está parado no século XIX, empatado nos critérios estéticos da tradição oratória de Rui Barbosa.

Posto aqui uma entrevista com quem entende do assunto: o professor Ataliba Teixeira de Castilho, exemplo de empenho e seriedade na abordagem de nossa língua:

*Que o Professor Pasquale Cipro Neto não me leve a mal. É visível, ao longo do tempo, sua preocupação com as variáveis do português e o respeito que tem por elas. O fato é que ele desencadeou, querendo ou não, um surto de abordagem corretiva de nossa língua que só vem crescendo nos últimos anos.