(imagem de capa: Manuel Bandeira, em cena de O Poeta do Castelo, de Joaquim Pedro de Andrade

Itinerário

Do latim itinerarius.a.um.

substantivo masculino

Roteiro de viagem ou o percurso que se pretende seguir ou que será feito de um local a outro.

Estações que fazem parte do caminho percorrido pelo trem; trajeto percorrido pelo trem.

Oração ou desejo de quem pretende viajar.

adjetivo

Que se pode referir às estradas ou aos caminhos.

Que designa o caminho percorrido entre um local e outro.

(de Dicio.com.br)

(a M. B.)

Há de se desfazer a ideia que um itinerário é um plano sólido, uma certeza na sua suposição, uma proposição retilínea de onde se parte e em onde se vai acabar. Na verdade começa-se de algo a que se presume que se quer chegar, para então alcançar aonde não se sabe que está. Nesse sentido, é exatamente como o fazer poético, de uma ideia, um sentimento, que se corporifica, se torna entidade até não ser nada mais que palavras, e assim nunca ter sido nada etéreo, nada externo ao texto, nada inconcreto. Uma analogia se encontra perfeitamente na outra, e traçar o itinerário da viagem que está para nascer, com todas as suas precisões, com seus desígnios, rotas e linhas direção, é tão somente deixar que uma pergunta se feche sobre outra pergunta.

O itinerário da terra suposta é o itinerário da própria vida, da matéria poética das lembranças. O caminho que se assume percorrer é sempre aquele que já está trilhado, que está pavimentado, mesmo que sem caminhantes, que está povoado, mesmo que exista apenas como suposição de um outro lugar. Os lugares que podem existir como nada, tão somente, são os mais importantes de ser visitados. 

Certas viagens, igualmente podem se iniciar na morte- essa também é lição que ensina Manuel Bandeira, e seu Itinerário de Pasárgada, presente único, presente belo, presente de uma formação, de uma biografia literária, de uma inteligência poética. Mutável, maleável, rápida e lenta, sinuosa. Presente capaz de alegrar toda uma vida. 

Essa morte, quando bem administrada, em uma dose não inteiramente letal, pode fazer a vida despertar de uma maneira única É capaz de curar a doença dos olhos e do nariz, é capaz de fomentar invenções poéticas, de sugerir contradições dentro de um mesmo verso, de propor uma descrição simples e lírica daquilo que é observado, de insinuar um sentimento, e um verso como seu invólucro, dentro do beco, dentro da noite, dentro do povo, dentro da casa antiga, dentro da memória que não se habita mais, dentro da emoção guardada nos olhos alheios.

Me saúdo, ao menos, com um abraço caridoso, com uma emoção quente, recebendo em mim a partida de minha anteposição, de quem eu me supunha capaz de ser. Quanto mais me distancio da Pasárgada presumida, dos meus sonhos, mais próximo chego de mim- e, assim, mais a encontro. Essa rota particular é um exercício de solidão, e assim inevitavelmente um exercício de encontro, pois nenhuma rota solitária se traça sozinho, e nada existe que está para além do outro. Nenhum caminho, por mais planejado, existe, de fato, senão como um lançamento à sorte, mesmo que à sorte discreta, cotidiana, de baixo risco, à qual não cabe quase nenhuma parte em dizer sobre o destino dos homens. Meu reflexo me diz exatamente sobre o tempo presente, com formas, cores, texturas, com o quanto nele eu me afundo a cada passo e com o quanto, a tanto mais que eu caminho, mais ele me envolve.