“As quatro solteironas começaram a falar ao mesmo tempo e no mesmo atropelo. Que isso agora não interessava, não era o caso. Tia Ivone foi a última a falar sob uns olhos de aprovação de tia Benvinda. Não podemos dormir debaixo do mesmo teto onde dorme uma criatura ordinária, capaz dos pecados mais infames.

   Minha mãe saltou da cadeira e, de pé, ao lado da irmã, gritou furiosa:

__Você, sua cretina, pensa que ninguém a viu fazendo sexo com aquele cachorro do papai? Pois eu vi. Sexo com o próprio primo é menos pecado e mais limpo do que com o pastor alemão, não acha?

   Todos quiseram falar ao mesmo tempo outra vez. Demorou até que se pudesse fazer qualquer progresso no assunto. Minha mãe, nesse tumulto, aparou um tapa com que tia Ivone tentou atingi-la. Saltei da cadeira e segurei aquela tia almiscarada pelas costas. Minha mãe desferiu-lhe uma cusparada no rosto. Quem  não chorava, gritava. Tio Romão ameaçou intervir na luta corporal, mas desistiu, porque praticamente joguei a tia sobre a cadeira gritando que ela ficasse quieta.

    Sentei arfante e olhei em redor. A cena a que acabava de assistir parecia riso de escárnio jogado contra as paredes e móveis daquela sala, a ironia sarcástica contra um mundo que se esboroava. O lustre central, pendurado sobre a mesa, multiplicava-se no verniz do piano, nos espelhos e retratos emoldurados, na cômoda e no oratório. Era um incêndio de iluminação querendo sem poder iluminar nossas trevas interiores.”

( a resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 04 de setembro de 2012)

Nos anos 1970, a Globo reservava para o horário das 10 (como chamávamos então) suas novelas mais “avançadas”, por assim dizer, do ponto de vista formal e temático, de autores como Jorge Andrade, Dias Gomes, Bráulio Pedroso. Assim tivemos, entre outras, Os ossos do barão, O bem-amado, O rebu, Saramandaia, O espigão. Lembrei-me muito desta última durante a leitura de O Casarão da Rua do Rosário, o novo livro de Menalton Braff. Nele, a matriarca dos Gouveia de Guimarães, Tia Benvinda, quase tem um ataque apoplético ao se dar conta de que estão construindo um espigão (edifício de 16 andares) em frente à casa da família, um bastião da moralidade e da tradição. Inutilmente, tenta—através de contatos políticos e militares (estamos na época da Ditadura)—embargar a obra.

Ela e as três irmãs solteironas (há também um irmão deficiente mental) já tiveram de aceitar de volta ao lar a caçula, que conspurcara a reputação familiar casando-se com um mecânico, ativista de esquerda. Ao se dar conta de que o marido desaparecera nos desvãos do regime militar, Isaura—trazendo os três filhos—retorna a um convívio difícil, que cinde a família entre os caminhos da Direita e da Esquerda, pois Rodolfo, o filho do irmão mais velho, Romão (outro que tinha conseguido sair do casarão) será um político da ARENA, o partido conservador, ninho de reacionários, enquanto Dolores, filha de Isaura, terá ativa participação no movimento DIRETAS JÁ…

Portanto, a morada da Rua do Rosário se torna uma espécie de espaço alegórico. Quem narra as histórias que ali acontecem desde os anos da Segunda Guerra (quando os sete irmãos ficam órfãos), é um dos filhos “intrusos” de Isaura, Palmiro. As idas e vindas de sua memória, a partir da morte da megera Benvinda, que os acolhera relutantemente e sempre fez questão de deixá-los à margem, preferindo Rodolfo, comporão—em cinco partes, cada uma focada num personagem (Benvinda; Ataulfo, o tio com problemas mentais, um ser próximo à natureza e aos bichos; Rodolfo; Isaura; e, por fim, Bernardo, o pai)—a um só tempo um painel romanesco e uma reflexão política sobre os rumo do país: “Isso é um trabalho do meu entendimento sobre minha memória, porque esta costuma ser caótica e aquele busca dar ordem ao caos”. Afinal, a base do romance sempre foi a busca de sentido num mundo do qual ele está ausente.

A alusão às antigas novelas globais das 22 horas não foi aleatória. Como disse, em termos de folhetim televisivo elas eram bastante arrojadas. O contrário acontece com O Casarão da Rua do Rosário.

Menalton Braff está com 74 anos. Assim como outros autores da mesma faixa etária (caso de Joyce Carol Oates e de António Lobo Antunes), nos últimos anos ele vem apresentando uma produção incessante e ambiciosa (só em 2010 foram quatro títulos), inclusive na seara infanto-juvenil, desde que a premiação de À sombra do cipreste (uma coletânea de contos apenas correta e habilidosa, a meu ver) com o Jabuti, em 2000, o transformou num nome conhecido nos meios literários nacionais. Mas ao contrário do que acontece com Oates & Lobo Antunes, a execução não parece corresponder à ambição.

Não há sentido na construção do livro em cinco partes, porque depois das duas primeiras (apesar de alguns detalhes incômodos, bem promissoras), as outras três repisam os mesmos fatos (ainda que ele brinque um pouco com as discrepâncias da memória de Palmiro, elas não são interessantes nem ele o é tampouco), de forma cada vez mais rasa. A última parte, que nos levaria para fora do casarão, apresentando-nos o elemento subversivo (o pai) é uma decepção total: nada acrescenta, e o texto ainda cai em rendimento, chegando quase a ser tosco.

Isso acontece porque Menalton Braff tem uma visão caricatural e estereotipada de seus personagens: as solteironas, o político conservador e direitista, todos são pessoas horríveis, mesquinhas, histéricas, incapazes de afeto, alegria ou calor humano (o único ser bom dessa ala é aquele que tem problemas mentais, uma eterna criança, e que é excluído do convívio mais direto com a família, numa edícula à parte do casarão). Já o núcleo  esquerdista é amoroso, generoso, destemido, e se Palmiro, por exemplo, retrai-se na vida adulta e não consegue ser feliz é porque ele foi vítima dos traumas do conservadorismo repressivo e da violência do regime (que quase destruiu sua família). Todas as tintas são assim carregadas, e O Casarão da Rua do Rosário, ao contrário do que vem sendo apregoado, passa longe de ser a visão ficcional abrangente que se esperava sobre o período pós-1964.

Em termos estéticos e ideológicos, O espigão ganha longe. O romance de Braff parece um produto anacrônico e irrelevante, um novelão.