“O primeiro CD que ela me deu foi o Bolero, de Ravel, porque eu sempre pedia a ela que tocasse o arranjo para piano, de que nós dois gostávamos. Aquele motivo repetido obsessivamente, a frase que permanecia quando parecia ter sumido, o modo como aos poucos tudo crescia, tomava conta de meus sentidos até a apoteose final. Tudo isso era o modo como eu saía do tempo, me ausentava do mundo para ter existência apenas na música…” (Menalton Braff, Bolero de Ravel)
“Ergui novamente os olhos por cima de umas laranjeiras. Cinquenta metros além: o vulto. Mas foi uma repetição. Operários caminhando sobre a laje, carregando, conversando, montando, erguendo. Foi uma repetição. A laje imensa, o madeiramento para as colunas, martelos trabalhando seu ruído seco, de tudo isso eu tinha registro sem compreensão, como então, de repente, aconteceu: a construção de um edifício. Deixei o livro aberto, à espera, e me distraí olhando o movimento que parecia suspenso nas copas das laranjeiras. A cinquenta metros. Tudo aquilo ali, em cima de nosso quarteirão. Minha respiração era de surpresa com aquele mundo que vinha nascendo independente de nossa vontade. Um mundo que deveria estar distante ou que, talvez, nem devesse existir. Um pouco de desconforto saber que eles podia, chegar, medir, calcular, cavar e, sem pedir licença para aqueles que havia mais tempo viviam naquele chão, começar a transformar o mundo…” (Menalton Braff, O Casarão da Rua do Rosário)
(o texto abaixo foi publicado de forma mais condensada no Caderno Ilustrada, da Folha de S.Paulo, em 06 de outubro de 2012)
VER:
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrada/70243-estereotipos-ideologicos-debilitam-novelao.shtml
Como em Bolero de Ravel (2010), uma casa é o cerne de O Casarão da Rua do Rosário. Se no anterior Menalton Braff traçava o perfil de um protagonista que se recusava a sair da casa paterna para se tornar um “membro produtivo da sociedade”, no novo título da sua prolífico produção é pelo olhar de um “intruso” que conheceremos o grupo familiar apegado às tradições e à permanência que o imóvel representa: quatro tias solteironas e um tio deficiente mental.
Dois irmãos saíram da casa para trajetórias opostas: Romão, representando o conservadorismo direitista, prolongado pelo filho, Rodolfo; já Isaura, a caçula (e a mais bonita), trocará os valores familiares pelo casamento com um ativista político, cujo desaparecimento (possivelmente morto pelas forças da “lei” durante a Ditadura pós-1964) a obriga a viver novamente com as irmãs, certamente não de maneira pacífica, trazendo os três filhos.
Um deles, Palmiro, é quem —motivado pela morte da matriarca, Benvinda —repassa em sua memória os mesmos acontecimentos, e às vezes até os mesmos trechos, nas cinco partes da narrativa. Esse recurso da retomada obsessiva de passagens havia sido utilizado de maneira muito feliz em Bolero de Ravel, até porque a música que lhe fornece o título tem esse apelo de leitmotiv reiterado e espiralado, e que convinha a um narrador acuado, “sem futuro”[1].
A decepção com O Casarão da Rua do Rosário é que, apesar do autor à primeira vista manipular uma estrutura cuidadosa, não há razão alguma que justifique as cinco partes do livro: as duas primeiras (focadas na megera Benvinda e no infantilizado tio Ataulfo) podem até ser defensáveis; as outras vão progressivamente esboroando o interesse da história e enfraquecendo o texto —e a quinta parte (centrada no pai de Palmiro) raspa o tacho, já raso.
Além da tessitura discutível, Braff mostra-se incapaz de refletir seriamente sobre as opções políticas dos seus personagens sem cair nos mais reles estereótipos e apelações: “…no casarão, as irmãs, acordo tácito, preferiam roupas mais escuras. Não que fosse uma espécie de luto—Isaura, mancha colorida entre aquelas mulheres, dizia que sim. Luto pelos muitos filhos apenas em potência, a que o orgulho familiar não permitira atualização. Os filhos que não chegaram a nascer. Um dia, enfrentando as quatro irmãs e tio Romão, no auge da raiva pelas injustiças sofridas por seus três filhos, levantou-se e com uma voz trêmula, insultou-as, Suas megeras, úteros inúteis! Foi um dia memorável, dizia minha mãe, elas nunca tinham ouvido o que ouviram…”[2]
Todos os personagens identificados com a direita são desprezíveis, reacionários desvairados ou oportunistas, incapazes de afeto verdadeiro ou de alegria (o único que escapa desse círculo infernal é o deficiente mental!); já os da esquerda guardam as reservas para a felicidade (não fossem os traumas da Ditadura), os vínculos familiares autênticos, enfim, são eles o sal da terra (embora nenhum deles nos toque ou interesse especialmente). Ora, ora. Assim é fácil compor um painel romanesco. Palmiro diz a certa altura: “Isso é um trabalho do meu entendimento sobre minha memória porque esta costuma ser caótica e aquele busca dar ordem ao caos”. Parece mais o uso de uma receitinha ideológica, e o resto consequência. O acerto de contas com o passado na forma de um novelão maniqueísta e embolorado.
[1] De fato, Bolero de Ravel tem um discurso, por assim dizer, quase fenomenológico na maneira como o narrador se conduz entre seres e coisas. Considero que faltou um tiquinho de arrojo ao autor para radicalizar essa textura e tornar seu texto ainda mais forte e muito mais inquietante, mas mesmo assim é uma das experiências ficcionais mais interessantes, uma coisa meio à Vergílio Ferreira, dos últimos anos no Brasil (editada com uma capa singularmente feia e um formato um tanto quanto infeliz pela Global).
Algumas passagens marcantes:
“O estômago é que me dita então os pensamentos. Por exemplo: é na gaveta do meio, no armário, ao lado da geladeira. Só dizia. Minha mãe ensinava sem intenção de ensinar. Ela dizia, Pega na gaveta do meio. E eu saía correndo para alcançar o sorveteiro. A Laura vinha atrás com vontade de ser bem tratada. Por isso não corria muito. Às vezes nem passava do portão, pois sabia esperar com certeza, e eu trazia levantado, inventando um jogo, seu sorvete de morango: aquela cor.
A última vez que minha mãe mexeu nesta gaveta, deixou aqui suas marcas? Aberta e muda, ela nada me diz. Tento adivinhar algum gesto que poderia ter ficado aqui, prisioneiro, mas todos os gestos já se evadiram. Há um pouco de dinheiro. Bem pouco. Algumas bulas que ela guardava durante anos sem conta, um saca-rolhas e um pacote de guardanapos de papel. E este silêncio de penumbra, e talvez restos de seu perfume, que apenas sinto com os dedos como um choque elétrico. Fecho a gaveta rápido e me refaço do susto. Não preciso contar o dinheiro para saber que é bem pouco, meus dedos me informam. Não fosse este corpo com suas necessidades, ficaria tudo como ela deixou. Exatamente do jeito que ela mantinha a casa. Assim teria um modo de retê-la por mais tempo neste mundo que era o seu. Mas não posso continuar com esta sensação de um buraco no estômago. Isso não me deixaria em paz. Preciso de comida para me esconder por baixo de minha consciência…”
“Ela [a irmã de Adriano, o narrador: Laura] passa com os pés silenciosos por cima do capacho e estanca de repente na primeira sombra do interior da sala. Olha em volta e demora a entender. Então grunhe e seus olhos buscam imagens que não existem mais. Ela grunhe como animal jovem pedindo socorro. Seu corpo todo participa da compreensão quando ela por fim chega. Inteiramente órfã, ela não sai do lugar, empacada, enquanto se agitam ombros e braços, desconexos, e seu choro explode novamente dentro de sua boca deformada, porque agora sim, agora ela se vê obrigada a acreditar completamente que a casa está vazia. Com seu ar parado e gordo de sombras, seus móveis um pouco encolhidos e mudos e as janelas escondidas por trás das cortinas que não se movem, a sala é estranha, a Laura repete e soluça. Como seu estivesse entrando enganada nesta casa…”
“As sombras podem ser ácidas quando o dia fica assim parado. Da estrada eu vejo algumas das pessoas rodando por cima do capim molhado para ir cirandar em torno da casa. É uma casa vazia. Nunca estive lá, mas sei que é uma casa vazia.
A brisa que sobe das laranjeiras dispersa as sombras que estão mais perto de mim, por isso tenho mais espaço para alongar os braços. O Bolero de Ravel cresce na caixa de som e se aproxima de sua apoteose. Me encolho ainda mais, encostando os joelhos no peito, pois temo explodir com a música. Fechadas no escritório, elas me refugaram, empurrado para fora de meu destino. Ela e seus assuntos graves. O tema obsessivo do Bolero me alivia de minhas circunstâncias. Não fosse por causa da Laura, muitos deles nem me cumprimentavam. Aquelas sombras. O que resto da família é ela, seu brasão. Algumas pessoas sabem da minha existência, mas fingem que não passo de um apêndice familiar: apêndice incômodo. As duas se afastam conversando baixo, resolvendo nossas vidas e eu fico na sombra inutilizado porque ninguém repara em mim, um túmulo que se move. As caixas me perfuram a consciência com a repetição dos mesmos compassos como a espiral do eterno retorno. Não existe verdade além da música, só ela é sólida, só ela é sua própria realidade”.
“Também não pressenti a mudança que se deu em mim. Ela gritou que não podia levar embora sua metade da casa, em seguida dispôs na minha frente um calhamaço de papéis com linhas certas a preencher com minha assinatura. Então me olhei pelo buraco dos olhos e o que encontrei foi um Adriano estranho de mim mesmo, dono de uma calma que não era minha. Como se fosse outro ser em mim, meu desconhecido, e não uma transformação. Mas então o tempo existe?”
[2] O parágrafo seguinte também é um espanto:]
“O Brasil, na época, andava agitado, com boatos de que se pretendia transferir a capital para o planalto central, roubando do Rio de Janeiro o glamour de capital do país. As irmãs reuniam-se todos os fins de tarde em volta do rádio, algumas delas achando que o demônio tinha um dedo enfiado naquela história, e outras, menos pessimistas, achando que Juscelino tinha razão. Mas isso tudo era tratado como um segredo, alguma coisa que só elas soubessem.” Onde se escondeu o escritor de Bolero de Ravel?
Outros exemplos:
“Foi um dia bastante agitado, aquele. Estávamos para sair, minha mãe e eu, à procura da Dolores, quando ela mesma, livre e saudável, ligou para pedir ajuda. E as histórias que ela nos contou, na viagem de volta, me davam agora a certeza de que se tornara uma mulher forte sem a vigilância de meu olhar…” E olhe que o narrador é um psiquiatra!!!????
“O Rodolfo estava muito bem dentro de um terno cor de mel e tinha uma gravata vermelha pendurada no pescoço. Quase uma cópia perfeita de seu pai. Os quatro foram recebidos com festas exageradas, mas os abraços principais foram reservados ao Rodolfo. Lá na frente do casarão, mesmo antes de entrarem. Quando sumiram de vista, na direção da porta da sala, a Dolores e eu corremos para ver como estava a Irene [a irmã deles, engravidada por Rodolfo, o que a tornou ainda mais pária dentro da família]. Continuava com o queixo e os lábios tremendo. Seu filho mamava de olhos fechados, recebendo vida [!!!!!!?????].
Risos e exclamações chegaram da sala até nós. Eles tinham acabado de entrar. E a festa continuava.
Súbito a Dolores tomou o sobrinho nos braços e saiu pisando com pressa as tábuas larga do corredor. Ouviam-se seus passos retumbarem no casarão. Saí atrás, preocupado com o que poderia acontecer. As quatro tias chegaram a tentar uma barreira de proteção ao Rodolfo, mas ele percebeu o que a prima trazia naquele embrulho de cobertor e rompeu o cerco. Era seu filho. A esposa de tio Romão pediu para segurar o neto, o Rodrigo também queria ver, todos eles rodearam encantados aquele menino robusto e saudável, uma criança linda. As tias se encolheram envergonhadas, engolindo suas fúrias inócuas…”
São Paulo, sábado, 06 de outubro de 2012
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