(...) «Assim, mal os galos cantaram, saltou da enxerga; e, depois de renovar a manjedoira da égua, começou a pôr a trouxa em ordem. Embrulhou as camisas num lenço da cabeça; noutro de assoar, em cujas pontas havia bordada a retrós vermelho uma quadra de amor, atou os seus seis tostões em níquel; em seguida meteu tudo na bolsa de amostras e, de mansinho, foi acordar os pais, batucando-lhes na porta.
Já estavam ambos a pé, e o padre Claro pigarreava alto, fumando o cigarro. O Moiro veio, farejou a um canto, farejou a outro, e assentando-se sobre o traseiro num uivo espremeu o seu bocejo.
  -- Então, pronto? -- perguntou-lhe o padre em voz rude, fitando-o muito, o que nele era indício de comoção.
  -- Pronto, falta aparelhar a égua.
  -- Bem; vai tirá-la para fora. E quem vai contigo até à vila?
  -- O Toninho. Vou chamá-lo e depois aparelha-se.
Na rua, as vozes e os passos retiniram sob o toldo refrangente do seu céu álgido. Era no Inverno e as águas nos cômoros caíam numa cantilena doce, quase chorada. Mal luziam as cumeeiras das choupanas. Tiraram a cavalgadura para o pátio e o padre pôs-se a aparelhá-la para ganharem tempo, e em sinal de interesse. Meio oculta na treva, a mãe estendia o braço com o lampião de azeite, erguido ao alto. O padre Claro dispôs os alforges em estudado equilíbrio, enquanto o Toninho e Norberto tiritavam. O Toninho tinha frieiras e acalentava-as ao bafo quente da boca. Depois, deitou a gualdrapa de pele de vitelo por cima e afivelou a cilha de que Norberto lhe passou a ponta, curvando-se por baixo da égua.
A um aceno de Doroteia, meteram para dentro de casa, a fim de que os rapazes engolissem uma bucha e dois tragos de aguardente. Havia na sala uma atmosfera consoladora de agasalho. E Norberto, afagado, rompeu na sua loquela de aldeão.
A mãe, entretanto, trouxera o açafate e, sobre a tampa voltada, serviu pão, queijo, azeitonas e um gole de aguardente no fundo verde duma garrafa. Os porcos, na pocilga, que era contígua, sentindo passos, começaram a grunhir. Ela disse:
  -- Aqueles grulhas estão sempre prontinhos para a trincadeira. Nem uns urcos...
Alumiando sempre e teimando com o Toninho para que se servisse, D. Doroteia fez as suas recomendações, de olhos no filho: «Tivesse juízo, e nada de maluqueiras se queria chegar a ser homem. Deixasse-se de camaradagens, que sempre vinham a dar em droga, e de fumar, que o fumo era bom para os peralvilhos
O padre tossia, sorvendo o cigarro a grandes goladas. 
«Na militança, ou fora, podia crer que ninguém as deitava em saco roto. E aos superiores, aos capitões, fosse sempre obediente, e tão fiel que não existisse nunca um argueirinho por onde lhe pegassem. Todas as manhãs, não se esquecesse de rezar à Senhora do Livramento que o livrasse das más horas e dos maus repentes. Três meses passavam depressa e cinquenta mil réis sempre se haviam de conseguir para resgatá-lo. As matanças ainda estavam longe, mas a chouriça da carne lá lhe ia ter, se tivesse tento na bola.»
Assim, deste teor, as recomendações da mãe correram durante muito tempo, enternecidas e molhadas de lágrimas. Norberto escutava-as, cabisbaixo, a vista cravada na toalha em cima de duas moscas que voltejavam friorentas ou moribundas.» ...
                                                                     (continua)

Gualdrapa — cobertura bordada para o dorso das cavalgaduras.
Urco — cavalo corpulento
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álgido
adjetivo 
1 muito frio, glacial; algente