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Out11

Maria do Rosário Pedreira

Praticamente até ao advento das novas tecnologias, os escritores eram seres distantes que ninguém via, a não ser o editor que lhes publicava os livros. Não iam à televisão, não se faziam sessões em bibliotecas à volta dos seus livros, nem sempre se punham fotografias suas na badana das obras que deles se publicavam. A Internet, entre outras coisas, facilitou uma espécie de humanização do escritor e aproximou-o do público, que hoje pode ver e ouvir o seu autor favorito em qualquer lado aonde vá – e até corresponder-se com ele ou pedir-lhe facilmente um autógrafo ao vivo. Quando eu era adolescente, imaginava os escritores pessoas formais, fechadas em casa a escrever, muito sérias e contidas (excepto quando se tratava de sabidos noctívagos com pendor alcoólico, que também havia estereótipos desses). Foi, pois, com grande alívio que, numa noite de lançamento de um livro há mesmo muito tempo, vi o historiador José Mattoso (que até tinha sido frade) dançar o tango como ninguém e arrecadar o primeiro prémio nos Alunos d’Apolo. Pode parecer uma infantilidade – e não deixa de o ser – mas, alguns anos depois, quando visitei uma escola por causa de uns livros juvenis que então escrevia, ouvi uma menina dizer a outra em surdina: «Viste? Toquei-lhe no cabelo!» Depois, vieram os computadores, veio o futuro, e os escritores perderam a sua aura de pequenos deuses.