Fotografia
fotografia, poesia, reflexão existencial, cotidiano
O fotógrafo Henri Cartier-Bresson (reprodução) Bruno Pernambuco Quem é que pode dizer o que houve? Uma luz apagou e no vizinho uma acendeu. Se ouve um vaso quebrando, se ouve uma promessa quebrando. A boca gostou de um pedaço do almoço e não gostou de outro. -“Isso passa!” O cheiro não sai na lavagem das mãos. A dentadura ficou esquecida no copo. A visita tinha alergia a gato. A notícia triste chegava do avô pedaços da noite escorriam ao telefone. As certezas se escondiam dentro das bananas. Ler a casca das laranjas era como ler o passado- os gomos aprenderam com a concisão dos hieroglifos. Alguém escolheu a camisa sem notar um rasgo. Alguém ficou triste em não vê-la hoje. Afinal- procurar a composição perfeita- como uma ária de Mozart enganosamente tocada pelo universo. Afinal, a música não é música. Afinal, só ouve a música quem pôde ouvir o silêncio.
Texto originalmente publicado em Revista Fina