(...) «Neste andurrial, em breves dias, se restabeleceu a fama de Gonçalo e se lhe couraçou do mais puro aço a constância de apóstolo. Num redondo de muitas léguas, a sua voz -- ignitum eloquium -- atroou a impiedade e fez sofrer ao vício rudes desfeitas. Aqui, além, o pecado tremia e desabava como as torres de Jericó. Nunca faleciam turbas a ouvi-lo. Vinham romagens de longas terras, borracha à cinta e bordão às costas com o taleigo, a pedir-lhe a benção; cercavam-no discípulos oriundos de todo o quadrante, e pouco a pouco foi-se tornando multitude a gente que achava mais sabor na melancolia e na fruta das selvas que nos regalos do mundo.
(...)
Prevalecendo a fama de casamenteiro em Gonçalo, ali se rendia, em procissão, a gente de duas províncias, donzelas cujo seio começava a pojar, rapazões aciumados, velhas solteironas, desde as sisudas às pancrácias, viúvas com a sarna da soledade. E, entre hinos místicos, cantavam:
Meu S. Gonçalo da azenha,
Casais-me ou não me casais?
Quem puder que se contenha,
Cá por mim não posso mais!...
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Quando os anjos vieram buscar a Gonçalo para a metrópole da glória inefável, morreram quantas flores havia pelos jardins e os montes, todas elas até então imarcescíveis contra geadas e sóis, por certo em sinal de luto. Mas outras vieram florir na campa do justo, plantadas -- dizem uns -- por intendência do Céu -- opinam outros -- pelas mãos agradecidas das mulheres que, mercê de Gonçalo, iam dobando a meada dum amor venturoso e derradeiro.»