(...) «Uma vez jogada e ganha a batalha com o Tinhoso, outra tarefa não menos santa se lhe deparou. As virgens loucas do lugar jogadas ao repúdio, as solteironas de cabelos brancos que começavam a descrer que jamais chegasse o seu S. João, enganchando-se-lhe à garnacha, na igreja, na rua, no presbitério cantavam como cigarras:

          S. Gonçalinho, casai-me,
          Casai-me que bem podeis,
          Que tenho teias de aranha
          Naquilo que vós sabeis.

E, por intercessão do bom levita, todas elas, donzelinhas de pé airado, matronas coriáceas, inimpigíveis ou rejeitadas, encontravam marido naquela feira franca de amor embandeirada com tal estandarte verde. E rezam os Bolandistas que a febre esponsalícia foi tão contagiosa que até para os animais domésticos pediam a benção sacerdotal, erro de que ele os advertiu benevolamente.
Assim prestadio e amorável, tornou-se Gonçalo o anjo tutelar de S. Pelaio, não procurando o bom gentio outro árbitro para destrançar discórdias e resolver litígios de honra ou de fazenda. Era casamenteiro e juiz. Um juiz sábio à Salomão. Como casamenteiro, a sua nomeada correu por toda a corda de povos, e donas e mais donas a ele vinham de longe, suplicantes, e volviam a seus lares, satisfeitas.
O prelado, do alto mirante, erguia as mãos a abençoar, pois além de rescender até ali o aroma da boa messe, nunca, dia por dia, cessavam de tinir o chocalho à porta do Paço as mulas carregadas com décimas, eirádigas e mãos-mortas de S. Pelaio. E tão cumpridora era a abadia, além de devota, que, em todo o primado, não houve segunda que lhe ganhasse em passal e pé-de-altar.
Sucedeu, porém, que mal Gonçalo completou a obra de arroteador e casamenteiro, sem aquela grande empreitada de engordar almas para o Paraíso, se viu só e se aborreceu.
(...)
Que o diabo arma à natureza humana as mais subtis esparrelas, di-lo o Flos-Sanctorum, a cada folha que se volta. Fosse por isso, o que está muito em regra com as manhas de Satanás -- e certamente não era este anjo vingativo e soberbo de força a esquecer os agravos do indómito lidador -- ou por outras razões, é sabido que resolveu ir macerar-se àqueles lugares do Oriente onde Jesus Nazareno padeceu e morreu pelos homens. Quem macera, macera alguma coisa... Que podia ele macerar senão esse invencível instinto da vida que reverdece da cinza dos anos e na courama dos penedos? Mediante beneplácito do prelado aparelhou-se, pois, para tão dilatada viagem, menos em abastecer o alforge de vitualhas e o boião de unguentos contra o reumático, do que em catequizar o sobrinho a quem deixaria, como substituto, à testa do querido rebanho de S. Pelaio, onde desde muito a fera não enterrava o dente, e a pastorícia era tão amena como lidar com anjos. Mostrou-se o sobrinho cera maleável ao toque dos seus dedos, decidido como Leovigildo a empunhar o cajado, e Gonçalo se deu por contente. E, na alba do dia da Ascensão, cantavam já os melros nos silvados do presbitério e o cebolinho aprumava suas baionetas verdes nas hortas, partiu para a Palestina, bordãozinho na mão, sacola ao ombro, casais, aldeias e nações em fora, nanja só, pois ia acompanhado do Bento Anjo da Guarda.» ...
                                                                                                                      (continua)