19
Nov24
Maria do Rosário Pedreira
Penso que foi no podcast Vale a Pena de Mariana Alvim que fiquei a saber que o último volume da Recherche foi apontado pelo escritor colombiano Juan Gabriel Vásquez como uma das suas leituras-chave. Custa-me dizê-lo, mas não passei dos primeiros três volumes da Recherche. Conheço duas fãs incondicionais de Proust que a lêem e relêem continuamente, mas também conheço alguém que diz que é incrível como alguém consegue escrever cem páginas sem sair do lugar, mas que aquilo não é para toda a gente. Nem sei onde posicionar-me entre estas duas opiniões: percebo que é genial, um jogo fantástico entre escrita e memória, mas também acho chatinho (e, além disso, embirro com o Marcel, desculpem). Tudo isto para dizer que nos últimos tempos andei às voltas com um livro que percebi logo que era bom (não tanto como Proust, mesmo assim) mas que, quando o lia na cama, dava-me o sono ao fim de poucas páginas. E, porém, era incrível como a autora, Marlen Haushofer, descrevendo o dia-a-dia praticamente invariável da sua protagonista no campo, na companhia de uma vaca e de um cão (há gatas, mas passam o dia na delas), consegue fazer maravilhas, lá está, sem sair do sítio. O livro tem sido enormemente elogiado e é um hino à natureza. Chama-se A Parede porque, num fim-de-semana que a protagonista foi passar na cabana de caça de uns amigos, se ergue uma parede invisível na montanha que a vai isolar para sempre do resto do mundo. Sim, a parede não a deixará sair de onde está e obrigá-la-á a sobreviver num ambiente que não era o seu e a tornar-se outra pessoa. É de algum modo algo buñuelesco, curioso e inteligente, mas eu achei-o levemente chatinho. A tradução, boa, é de Gilda Lopes Encarnação.