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Nov24

Maria do Rosário Pedreira

Muitos romancistas referem que os seus livros não respondem a nada, pelo contrário, fazem muitas vezes as perguntas que os inquietam. No livro de conferências de Juan Gabriel Vásquez intitulado A Tradução do Mundo, o escritor colombiano conta que o editor de Tchékhov se irritou com ele por não ser capaz de tomar posições claras nos seus contos; e que Tchékhov terá ripostado que ele estava a confundir duas coisas: responder às perguntas e formulá-las correctamente. Na semana passada, ouvi a jornalista Isabel Lucas (também escritora, embora de não-ficção) dizer no programa da TSF de Nuno Artur Silva que, numa entrevista, as perguntas são tão importantes como as respostas, pois uma coisa leva a outra e, se as perguntas forem pobres, as respostas podem também não ser fantásticas. Já vi uma vez um escritor entrevistado ao vivo num festival literário desistir, aliás, de responder às perguntas tontas da sua entrevistadora, pegando-lhe na mão e dando-lhe umas pancadinhas no pulso, como a dizer, "pára lá, que eu faço isto sozinho", e a seguir fazer aquilo sozinho e dar um baile incrível sem precisar realmente de ninguém, porque estava a formular as perguntas certas e a responder-lhes. Isabel Lucas disse nesse programa de rádio que tinha muito medo das perguntas, e ainda bem que tem, porque as suas entrevistas a escritores, recentemente saídas com o título Conversas com Escritores, são boas e talvez o seu cuidado com as perguntas tenha que ver com esse medo e com o desejo de ganhar a confiança dos entrevistados, entre os quais estão nomes tão sonantes como os de Julian Barnes, Javier Marías, Paul Auster, Salman Rushdie ou Elena Ferrante. Esta é uma forma de saber quais foram as perguntas que levaram os romancistas a responder com a ficção. Vale muito a pena saborear por isso este livro de entrevistas.