Série de Andrew Orenstein ganha novos episódios na Netflix
Matheus Lopes Quirino
A primeira cena do primeiro episódio prende o espectador até o final do décimo quarto minuto. Nele, os animais da fazenda Mossy Bottom são surpreendidos com um forno à lenha, deixado no quintal pelo Fazendeiro, sem nome, que não obtém sucesso com a modelagem de uma caneca de cerâmica. Aquecido, eis que Shaun começa a manipular ingredientes e voá-la: faz uma pizza marguerita. Colhe tomates da horta, alecrim, rala um pedaço suculento de queijo e, inesperadamente, o aroma atrai motoristas que passavam por ali.
O negócio dá certo – mas dura pouco. As ovelhas lideradas pelo protagonista formam uma cadeia de produção em massa. Improvisam caixas de pizza e, rapidamente, a pizzaria de Shaun degringola, tudo começa a dar errado. É a pressa. Neste episódio, aprende-se uma importante lição sobre linha de produção, fordismo, oferta e procura, demanda, escassez de recursos e qualidade. Afinal, a primeira pizza, feita com paciência, é visualmente mais bonita do que a massa emporcalhada do final. Fica a reflexão.
Clássico, Shaun O Carneiro ganhou novos episódios que dialogam com problemáticas reais. Antenado, é possível ver na Netflix também episódios de outras temporadas. A série de Andrew Orenstein aborda temas como as novas conexões cibernéticas, a necessidade incessante de ficar conectado a um Iphone, com o aparelho detalhadamente esculpido a partir do modelo mais novo lançado pela Apple.
Luzes neon de baladas e a noção deste espaço totalmente hi-fi X wi-fi que, a bem da verdade, não passa de um celeiro. Instigante e ácido, os animais têm feições humanas, são impagáveis, inteligentes e saem pela fazenda e arredores causando confusão – ou resolvendo-as, mesmo quando o assunto não é com eles.
Andrew Orenstein critica a exposição demasiada e o efeito negativo da autopromoção, o narcisismo das redes sociais e os limites da propaganda a partir do episódio em que o Fazendeiro, um tiozão ruivo acabado, fica em segundo plano por não saber vender uma boa imagem na internet e perde todas as competições locais. Ou quando Bitzer, o cão pastor que faz o meio de campo entre os animais e o Fazendeiro, o animal mais inteligente do desenho dá um tapa no celeiro (no fotoshop) para uma espécie de Airbnb. Os hospedes chegam e não se dão conta da farsa no anúncio. Lá tem wi-fi, logo está tudo bem.
A animação, que tem cerca de sete minutos, é dividida em dois blocos com micro esquetes entre elas. São foto-piadas que complementam o desenho. Com inspirações nas series cômicas britânicas, especialmente aquelas mudas que faziam sucesso na televisão do século passado, o primeiro episódio de Shaun foi exibido na Nickelodeon em 2007. Daí, Andrew Orenstein colheu sucesso com as crônicas da fazenda.
Realizado em stop-motion, técnica que usa modelos de massinha filmados quadro a quadro. Dois exemplos clássicos são “A Fuga das Galinhas”, que celebrizou a técnica, e “Wallace and Grommit”, na batalha dos vegetais (que, inclusive, Shaun aparece em dado momento, pastando). Todos os movimentos gravados levam horas para se executar.
Afinal, a massa de modelar não é um material consistente, então é preciso de uma boa equipe de animadores para vários modelos (no caso de Orenstein, que dispõe de dezenas de artesãos, fica mais fácil). Para se gravar um segundo, cerca de quinze ou vinte fotos são necessárias. A produção é caríssima, no caso de Shaun, passa de milhões de dólares.
Mas dinheiro não é problema. Com uma equipe grande e talentosa, distribuição da Netflix e uma trajetória de sucesso, Orenstein faz bem a dialogar com as problemáticas modernas, chegando a ser comparado até a uma espécie de George Orwell do stop motion, quando seus bichos se organizam para tocar a vida, não no ritmo de uma revolução, como no clássico da literatura distópica, mas, quem sabe, um novo roteiro não venha a atender, dia desses, algo do tipo. Demanda há. E inspiração sobra.
Publicado por Matheus Lopes Quirino
Jornalista, foi repórter e editor-assistente do caderno Aliás do jornal O Estado de S. Paulo. Escreve sobre livros, artes visuais e cultura. Ver todos os posts de Matheus Lopes Quirino