Primeira exposição individual de Gabriel Roemer segue em cartaz até o próximo sábado; leia artigo do curador Yago Toscano

Yago Toscano

De anatomia intricada, rebuscada e assimétrica, alguns dos trabalhos recentes de Gabriel Roemer se apresentam no lapa, Lapa, em sua exposição individual intitulada ‘Tocaia’. Espaço independente de fomento à cultura, realização de atividades transdisciplinares em arte, mas também  extensão da casa e do ateliê do artista. Por isso, é possível suspeitar que esses objetos de arte  tenham exigido sair, para ramificar suas existências para além dos limites do ateliê que habitam  nos fundos, como quem – atribuo qualidade de pessoa – pede um pouco mais de espaço para  convívio.

Agora, é possível conviver com elas também. Em minha única visita ao ateliê de Gabriel, chamou-me a atenção um conjunto de esculturas improvisadas, embora laboriosas, dotadas  de uma expertise familiar, ainda que persistentes em seus mistérios: cavaletes triangulares que  servem de suporte a pequenos objetos quadrangulares, compondo um conjunto acostumado ao  que Roemer chama de arapucas. Com elas convivem também suas pinturas e um vasto conjunto  de outras coisas que, com o tempo, ganham dimensão de corpo – não qualquer corpo, mas o  humano.  

ARAPUCA 2

Arapuca, vocábulo de origem tupi, é composto pelos morfemas ara “pássaro, ave” e puka “que bra, estala, cai”. Trata-se de um artefato que serve de armadilha para pássaros, ainda que em  contexto figurado sirva para qualquer um, preservando, de todo modo, um espaço entre as partes. O que torna os objetos produzidos por Roemer atraentes é justamente a acentuação do espaço entre as partes, o lugar do chamado a outras dinâmicas de relacionalidade, cujos princípios  são distintas figurações das relações sociais, além das quais estamos familiarizados. Retomando  as dinâmicas dessas armadilhas, estas dispensam a presença acessória de quem as confecciona. É preferível, no entanto, não as entender como extensão do corpo de um caçador, mas como  algo que age por vontade própria. Se, ao longo da história da arte, como se sabe, o artista é o  instaurador das intenções em torno de um objeto, aplicando um predicado relacional, como se  apresentam aqui estes objetos situados?  

A princípio, é honesto chamá-los de coisas, em respeito ao fluxo vital que as constitui e as integra  aos ciclos e dinâmicas da vida e do ambiente ao redor. Desse lugar, pode-se pensar para além do  que as definiria como objeto de arte. Interessa, portanto, refletir sobre as relações que elas estabelecem nesse sistema da arte, em relação a esse mundo no qual estão enredadas. Essas coi sas possuem um pragmatismo próprio e contemplativo, além de uma persuasão formal: sua geometria irregular alia-se à imprevisibilidade de suas proporções, o que as converte em esculturas  descendentes de uma vertente construtiva, ainda que persistam numa vontade povera. Afrontam  a simetria, mas prescindem dela para sustentar a razão torta de sua estrutura compósita. Assim,  galhos, troncos, insetos, vergalhões, emaranhados, redes e cordas que amarram as coisas umas  às outras surgem em aparições estranhamente estruturadas, sintagmas de pequenos gestos, que  reconhecem a inteligência de sua aparência escultórica, onde quer que ela se manifeste em sua  malícia persuasiva.  

As pinturas de Roemer convidam a contemplar, a penetrar no espaço entre as partes e, assim,  instauram seus encantos persuasivos partilhados com sua família de objetos. A maioria deles  possui terminações nervosas, que reforçam seu temperamento colérico para além da definição  de “meras esculturas”. Pelo contrário, não há nada de comum nelas e estão dispostas a atacar: o  olhar é o vetor de persuasão pelo qual se voltam a uma pessoa específica. O néctar dessas flores  pictóricas nos convida a estar diante delas, a comparecer em seus aromas intensificados pelos  campos de cor de suas composições alucinógenas e, possui terminações nervosas, que reforçam  seu temperamento colérico para além da definição de “meras esculturas”. 

Pelo contrário, não há  nada de comum nelas e estão dispostas a atacar: o olhar é o vetor de persuasão pelo qual se voltam a uma pessoa específica. O néctar dessas flores pictóricas nos convida a estar diante delas,  a comparecer em seus aromas intensificados pelos campos de cor de suas composições alucinógenas e, assim, nos faz adentrar no espaço de perigo e apreensão desses objetos voltados ao  nosso corpo. Agem em conjunto, como se partilhassem do mesmo ponto de vista, e produzem  relações de causa e consequência de outra ordem social. Se agem, portanto, são dotadas de  intencionalidade e inteligência próprias. Essas coisas – pinturas, esculturas e assemblages – são  também pessoas.  Pessoa distribuída, conceito cunhado por Alfred Gell nos debates de antropologia da arte, compreende a ideia de pessoa não como uma entidade singular, mas como uma rede distribuída pelas partes, índices e traços que ela deixa em outras pessoas e objetos. 

Nesse sentido, a ideia de  pessoa é descentralizada de um sujeito com ponto de vista mononuclear, e as produções em arte  surgem como lugar de mediação das relações sociais, distribuindo pessoalidade entre as partes.  Objetos de arte equivalem-se a pessoas, e o sistema de arte torna-se um campo de ação das  relações, figurando outro princípio de relacionalidade no âmbito da vida. Toda figuração é sempre uma figuração das relações. O que dizer, então, dos predicados relacionais que compõem a  percepção dos objetos de arte? Ou, como as relações mundanas em torno deles são formuladas  visualmente?  

Armadilha 2

A produção atual de Gabriel Roemer permite pensar em objetos que não estão fechados em seus  emaranhados constitutivos, mas na indeterminação dos pontos de avizinhamento que são capazes de produzir. Eles nos aproximam, ficam à espreita, estão de tocaia, aguardando o momento  oportuno para nos atiçar. Essas são questões francas que percorrem a exposição, de modo que  ‘estar de tocaia’ provoque uma mudança radical de posição entre espectador e obra. E, nesse  caso – ousemos questionar –, quem observa quem? Se pudermos pensar outras relações com  objetos de arte, que os pensemos capazes de criar mundos, capazes de produzir outras dinâmicas de relação – ainda que melindrosas –, construindo outros destinos para além daqueles que  justificaram suas presenças no mundo, pelos sentidos que lhes foram e são atribuídos, e que  estejam abertos a outras formas de viver a vida. Afinal, vivem.