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Fev24
I - Jardim das Tormentas. 1913
Manuel Pinto
(...) «Uma tarde, os garotos correram-no à lapada e teve de dar uma carreira, botar além dos seus domínios, o que foi uma violência para as suas pernas zambras e combalidas. Quando voltou ao povo, já as vacas badalejavam à manjedoira. A loja estava fechada e não se descobria vivalma. Depois de andar à toa no redondo, rezar contra a parede, cismar no meio da rua, volveu à porta da estrebaria e ali quedou muito tempo, cabeça baixa, à espera. Afinal, como ninguém se mostrasse, soltou um relincho, primeiro rápido e suplicante, a advertir; depois espaçado e de queixa; por último, um nitrido prolongado e aflitivo que fez chorar na cavalariça próxima a égua do senhor Reitor.
Relinchou, relinchou e, como não lhe valessem, cheio de angústia e de raiva, desatou a escarvar a terra. Suspendeu-se um instante: ninguém veio. Impaciente, com a mão esgadanhou à porta, fê-la estreloiçar. Debalde. Já o seu próprio desespero desfalecia quando reparou num vulto que avançava. Reconheceu de salto, pelo andar e a estatura, o filho do Cleto e, enristando as orelhas, em voz baixa e agradecida nitriu. Mas o desalmado jogou-lhe um pau à cabeça, e ele foi dormir ao relento, longe dali, transido de pavor e desgostoso com os homens.
No dia seguinte, ao sol-pôr, avistou o dono que regressava da vila, escarrapachado entre os potes, e governava o asno pelo cabresto. E saiu-lhe ao encontro, ralado de queixas e de saudades que ele podia bem ler no desafogo que trasbordava dos seus grandes olhos húmidos, cheios de ternura e perdão. O Cleto deitou-se abaixo, porventura com receio de algum desatino. E, muito cordial, coçou-o na testa, anediou-lhe o lombo, bateu-lhe duas palmadinhas amigas nas ancas, ao passo que murmurava palavras que não compreendia, mas eram dolentes como o crepúsculo da tarde nas estradas desertas por longes terras. Tornou a bifurcar-se na albarda, tangeu: Arre, burro! E ele, reconciliado com o Cleto, foi até o desenfado de choutar no encalço do burrinho para casa, porfioso, aqui te perco, além te pilho embora muito lhe custasse. Nessa noite dormiu como um justo, satisfeito consigo e com o mundo.
Os tempos foram passando e, corda livre, porta franca, sangue mais leve, pelagem a rebentar com o estio, o vagabundo começou a entesar-se na carcaça de lázaro.»
(continua)
Zambro — cambado, de pernas tortas.
publicado às 19:39