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Fev24

I - Jardim das Tormentas. 1913

Manuel Pinto

(...) «Com besta de empréstimo, o Cleto chegava uns dias com o leite azedado, outros tarde e às más horas.
Na aldeia, quem tinha animais de sela ou albarda gostava pouco de emprestá-los. Antes a mulher. De modo que acabou por não haver alma que lhe dispensasse um sendeiro e o leite coalhou nas panelas. Na manhã seguinte, ainda havia estrelas, bateu-lhe à porta um sujeito, com horsa possante pela rédea, a pedir o rol.
Da soleira, estremunhado, o Cleto respingou:
  -- Que está para aí a alanzoar, homem?
  -- Já lhe disse: está despedido da fábrica. Passe para cá o rol...
Cleto protestou; ia comprar o macho do defunto Isidro e o serviço ficava regularizado duma vez para sempre.
O outro não lhe deu ouvidos e partiu sem a relação a levantar o leite. Chegado ao largo da fonte, puxou do chifre e três vezes businou. As mulheres acudiram com as vasilhas; lá bateram língua; lá expuseram umas para as outras os seus agravos e romancearam suas queixas, lancetando fundo no Cleto. E como o alma do diabo já lhe fizera perder um dia de leite, tinha fama de trapaceiro e era um farroupilha, os potes partiram para a vila atestados.
O Cleto, entrementes, deitou-se a falar com o o dono da fábrica, o senhor José da Loba, homenzinho gordanchudo e tatibitate, mas rico e de muita influência eleitoral. Sua senhoria mandou dizer que a resolução era inabalável e deu-lhe umas calças velhas e uma espórtula em dinheiro.
Quando o Cleto contou os mal-empregados passos, Joana disse:
  -- Amanhã vou lá eu.
Arreou-se muito: saia de baeta justa na anca, chambre que era um jardim, chinelinha de verniz no pé, a cavalo na Carriça, da Saramaga, a troco de lhe fiar um adeito de tomentos, e limpa e escarolada foi.
  -- O senhor José da Loba não está -- responderam-lhe.
Esbracejando, forçou as portas até chegar ao fabricante de queijos e manteiga, a manteiga pura de Longa.
  -- Então a que vens, Joana?
  -- Ainda mo pergunta?! Quero o meu marido nos leites, ouviu?
  -- Mas como, rapariga, se ele não tem besta, traz tudo ao deus-dará? Os fornecedores desertam, estás a ver, descoroçoados os melhores. Raro o dia em que o leite não venha escasso ou se não estrague boa parte, umas vezes porque chega tarde, outras, eu sei, porque os produtores perderam o respeito e fazem tibornada. Não, assim não podia continuar!
  -- Já lhe disse. Se quer o serviço bem feito empreste-lhe dinheiro para comprar uma cavalgadura. Não faz favor nenhum. Tem apalavrado o macho do defunto Isidro...
  -- Ora, tu és tola, por mais que me digam!... Mas ouve, mesmo que eu acedesse... ninguém mais lhe quer dar o leite...
  -- Cantigas! O que eles são é uma corja de invejosos. Empreste-lhe você dinheiro e verá.
Não, já te disse que não, mulher! Escusas de te matar!
  -- Sim? Não o fará, mas diabos me levem se em voz alta não for dizer à senhora D. Zèzinha, a todo o mundo, que você é meu amigo.(...)
                                                                                        (continua)

publicado às 18:56