Um dos livros para os quais eu tinha maiores expectativas.
Tive a oportunidade de ver esta peça em cena pela byFurcação, no ano passado, e achei sublime. Estava à espera que o meu amor me emprestasse a sua edição (em espanhol), que ele lera em segredo antes de irmos ver a peça, mas por motivos vários isso não aconteceu até agora. Assim, quando a minha irmã recebeu esta edição de prenda, e após a ter lido e apreciado, pedi-lha.
A Casa de Bernarda Alba é uma peça singular por um motivo: não tem qualquer personagem masculina. Bernarda tem cinco filhas (Angustias, Magdalena, Amelia, Martirio e Adela), uma mãe louca, Maria Josefa, algumas empregadas, destacando-se Poncia. A visita que recebe é de uma mulher. No entanto, acabam por ser os homens o tema central, nomeadamente Pepe Romano. Foi a última peça que Federico García Lorca escreveu, pouco antes de ser assassinado, possivelmente pelas forças nacionalistas da Guerra Civil Espanhola. Esta peça, porém, tem pouco de político - tem muito de social, criticando a Espanha rural conservadora, os papéis atribuídos às mulheres, o condicionamento das mesmas, o domínio das aparências ("o que é que as pessoas vão pensar" e afins).
BERNARDA
(...) Filha, dá-me um leque.
ADELA
Tome, mãe. (Dá-lhe um leque redondo com flores vermelhas e verdes.)
BERNARDA (atirando o leque para o chão)
É isto leque que se dê a uma viúva?! Vai buscar-me um leque negro e aprende a respeitar o luto de teu pai.
MARTÍRIO
Tome o meu.
BERNARDA
E tu?
MARTÍRIO
Não tenho calor.
BERNARDA.
Pois arranja outro, que bem hás de precisar. Porque nos oito anos que vai durar o luto não entrará nesta casa o vento da rua. Viveremos emparedadas, como se tivéssemos entaipado as portas e as janelas com tijolo. (...)
A história é simples, e curta. Espanha rural, anos 30. Bernarda Alba acaba de ficar viúva pela segunda vez, do pai de quatro das suas cinco filhas, e entra num período de luto cuja longa duração decide e do qual obriga toda a casa a partilhar. Bernarda é uma espécie de mãe tirana, austera: controla as cinco filhas, não obstante as suas idades (Angustias, a mais velha, já tem quase 40 anos), as suas vontades, as suas personalidades, impondo-lhes o celibato, em nome dos bons costumes e aparências.
Bernarda não permite às filhas que façam nada, senão sentarem-se com ela; no luto, não podem sequer sair de casa. As filhas andam desesperadas pela casa, infelizes, presas ao sistema de valores da mãe, que não lhes diz nada e não dá espaço aos seus desejos. O drama intensifica quando Pepe Romano, um homem local, atraente e desejável, pede a mão de Angustias (a mais rica, dada a herança do pai) em casamento, causando a inveja das suas quatro irmãs.
MADALENA
Se a quisesse pela sua beleza, se a Angústias lhe interessasse como mulher, talvez eu sentisse alegria. Mas vem pelo dinheiro! Apesar de ser nossa irmã, temos de confessar, aqui em família, que está velha, doente, e foi sempre de nós todas a que teve menos encantos. Já aos vinte anos parecia um pau de vassoura vestido. O que não será agora com quarenta!
MARTÍRIO
Não fales assim. A sorte vem quando menos se espera.
AMÉLIA
O que eu disse é a pura da verdade! A Angústias herdou muito dinheiro do pai. É a única rica da casa. E agora, que o nosso pai morreu e se vão fazer as partilhas, andam todos atrás dela!
MADALENA
O Pepe Romano tem vinte e cinco anos e é o homem mais bonito do sítio. O que seria natural é que te pretendesse a ti, Amélia, ou à nossa Adela, que tem vinte anos, em vez de vir buscar o que há de mais triste nesta casa, uma mulher que ainda por cima é fanhosa, como o pai.
Adela, a mais nova e bonita das irmãs (todas descritas como sendo feias), decide então revoltar-se contra a ordem imposta pela mãe, começando uma relação proibida com o noivo de Angustias.
Destacam-se, no desenlace, os castigos e juízos impostos a Adela pela sociedade, patriarcal, machista, que releva as mulheres para lugar doméstico e subserviente, e a forma como Pepe Romano simplesmente escapa, foge. Porque os homens podem sair incólumes das mesmas situações que destroem as mulheres. A reacção final de Bernarda, no fundo, diz tudo.
Entretanto, Maria Josefa adopta um cordeirinho e canta canções loucas de verdades.
MARIA JOSEFA
Quando a minha vizinha tinha um filho, eu levava-lhe caldinhos e depois ela a mim, e assim sempre, sempre, sempre assim. Tu também hás-de ficar com o cabelo todo branco, mas as vizinhas não hão de vir trazer-te caldos. Quero ir-me embora, mas tenho medo de que os cães me mordam. Porque não vens comigo para o campo? Gosto tanto do campo! Gosto de casas, de casas com as portas abertas e as vizinhas deitadas nas camas com os filhos pequeninos e os homens na rua sentados nas cadeiras. O Pepe Romano é um gigante! Vocês todas o querem. Mas ele acaba por as devorar, porque vocês não passam de grãos de trigo. Grãos de trigo, não. Sapos sem língua!
Esta peça descreve um cenário sufocante, controlador, que castiga a paixão, a liberdade e a juventude. Nunca se desenvolvendo particularmente todas as irmãs (novamente, a peça é curta), as tensões são fortes e palpáveis, apesar das falas curtas. Acompanhamos o drama familiar num cenário único: a casa que dá título ao livro, a casa claustrofóbica.
Destaco, ainda, esta review no Goodreads, onde um leitor faz uma analogia entre a casa Kardashian e a casa de Bernarda.
Recomendo a todos que leiam - ou, melhor, havendo a possibilidade, que vejam em cena - esta peça. Sublime.
5/5
Podem comprar uma outra edição, em espanhol, aqui (parece estar esgotado em português).


