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Jun23

Maria do Rosário Pedreira

A escritora argentina Aurora Venturini já tinha oitenta e tal anos quando recebeu um importante prémio literário para obras escritas em castelhano com a ficção As Primas. Quem o conta é a escritora Mariana Enriquez, que fazia parte do júri, num curto prefácio ao romance que já se encontra traduzido em português e em muitas outras línguas. Venturini já tinha outros livros publicados (um dos quais de poesia, e elogiado por Borges!), mas, embora tivesse vivido em Paris muitos anos, em Espanha era uma perfeita desconhecida. E a sua prosa é tão desassombrada que foi uma autêntica surpresa para os jurados saber que a autora daquele romance incrível era, afinal, uma senhora já de muita idade. Depois disso, ainda houve outro livro (As Amigas), mas a escritora morreu em 2015. Em todo o caso, falemos deste As Primas e da sua narradora Yuna Riglos, uma rapariga com uma ligeira deficiência mental, mas extremamente dotada para as artes plásticas, que com o apoio de um professor faz exposições individuais de grande sucesso mas não pode abrir a boca, sob o risco de não conseguir «pontuar» as frases e afastar o seu numeroso público. É esta rapariga recém-chegada à maioridade que narra a história da sua família, que inclui uma mãe professora horrível, uma irmã deficiente profunda horrível e sobretudo muitas primas e tias, algumas das quais, temos de dizer, horríveis (e a mais simpática e cúmplice, Petra, até é criminosa). É tão desconcertante esta família que só podia ser ficção, mas parece que no mundo real a família de Aurora Venturini também não batia lá muito bem da bola. Divertido, desbocado, desarmante. Embora prometa mais do que dá, vale a pena.