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Jun23

Maria do Rosário Pedreira

Aqui há tempos, li um livro de uma conceituada autora espanhola cuja tradução vinha assinada por alguém que já deu provas de ser competente e ter experiência no ramo. Porém, havia constantes deslizes indesculpáveis, não só porque os tradutores daquele tipo não escorregam habitualmente em falsos amigos e frases idiomáticas, mas também porque algumas passagens tinham uma sintaxe bastante estranha e retorcida. Na altura, pensei em duas coisas: na pressa, e daí a propensão para a tradução mais próxima do original (quiçá com recurso ao Google Translator, que dizem estar cada vez mais sofisticado); e a possibilidade de a tradução ter sido feita por outra pessoa mais nova e mais inexperiente e apenas revista pela pessoa a quem fora encomendada (isto acontece mais vezes do que pensamos e alguns editores preferem correr riscos e ter um nome sonante para chamar público a contratar um tradutor desconhecido e com tempo livre). No entanto, enquanto estava a gozar as minhas férias, veio a lume a polémica de muitos livros, sobretudo clássicos, já estarem a ser traduzidos por inteligência artificial e apenas revistos por humanos, tendo-se descoberto que uma senhora desconhecida (ao que parece, é um nome inventado) teria traduzido mais de cem ou duzentos livros num só ano, o que, dada a dimensão desses livros, seria completamente impossível. Isto levou-me então ao tal livro da espanhola e à hipótese de a sua tradutora ter recorrido também à IA para lhe fazer o trabalho duro. Será que já chegámos a este estado de coisas? Eu, que faço tudo para que as traduções que publico sejam entregues a bons profissionais e, em alguns casos, até beneficio de apoios dos países de origem dos autores para isso (Coreia, Países Baixos, Itália...), fico parva com esta má notícia. Que mais nos irá acontecer?