Anúbis*
Nas vezes que o olhar dele fitei,
Tomei-me de horror descomedido
Por ver em sua face o sentido
De todas as ações que pratiquei.
De joelhos ao chão lhe supliquei
Perdão, e como em Deus, vi colorido
A tez de Libra**, e um só ruído
Formou-se no gesto que observei.
Virou-se a mim e disse, grave em si:
- Vós, vivos, enquantos plenos de destreza
Esquecem-se de teus filhos e irmãos.
E quando, à porta, a morte bate, ali
Tentam se recordar de uma beleza
Que nunca deram, e se matam com as mãos.***
---
Não há faca mais afiada que a vida,
Que se auto-mutila pelos anos;
Não há faca mais grã e dolorida
Que vós, pobres e imundos humanos!
El sangre que verte de tuyas manos
Es un sangre que llora sin medida
Que ni cubriendo con todos los paños
Ha de atar tán profunda herida.****
Mas pobres são vocês que não enxergam
Que eu não julgo, as luzes que lhes cegam
São seus atos em opostos sentidos.
Não se engane! Não, que a corda solta,
E toda ação sua um dia volta
Restando-nos somente os sentidos.
* Anúbis: Anpu, deus egípcio da morte e dos moribundos. É quem julgava os mortos.
** Tez de Libra: Balança.
*** Eles se matam.
**** O sangue que verte de tuas mãos/ é um sangue que chora sem medida / que nem cobrindo com todos os panos / há de atar tão profunda ferida.