
Uma vez cortei um peixinho de aquário aos pedaços. Estava morto, obviamente. Não tinha lógica tirar o peixe da água e tentar acertar-lhe com uma faca enquanto ele estrebuchava na bancada. Tirei-lhe os olhos e depois cortei-o em partes...Ás tantas comecei a ficar frustrada e o desgraçado acabou não só de órbitas vazias como desfeito e havia escamas por todo o lado. Não é muito diferente do que se faz com os peixes comestíveis, mas mesmo assim quando contemplei o que tinha feito arrependi-me. Ele não me fez nada para eu profanar com tal violência o seu corpo escamoso. Volta e meia lembro-me deste episódio. O meu cérebro é uma espécie de livro de actas: estão lá registados com pormenor todos os meus erros, inclusive esta breve e inconsequente encarnação da minha pessoa em Dexter dos peixinhos. Ás vezes custa-me mesmo adormecer...O que é estúpido, porque enfim não á forma de mudar o que foi feito. O pior é ficar a pensar no que não fiz do género "se tivesse falado naquele momento...". É uma tortura mental. Há algo de profundamente injusto no facto de as pessoas digamos mediamente boas, erros todos cometemos, terem insónias e quem é verdadeiramente mau dormir na maior paz.
Ter consciência é uma chatice...Há tempos atrás vi na televisão uma reportagem sobre um dirigente nazi, não me lembro nome mas também que importa, que fugiu para a América Latina e depois foi apanhado só que antes de se conseguir julga-lo ele morreu serenamente de velho. Tenho a impressão que ele devia dormia mais em paz do que eu que nunca mandei gasear pessoas. Não me parece justo, ou então penso simplesmente demais. De qualquer modo prefiro assim. O mal é um tema interessante. Por exemplo, é curiosa a tendência de dizer as crianças para se manterem afastadas de pessoas mal encaradas...Deviam ensina-las que, na verdade, o mal tem muitas formas. Talvez assim não tivessem que aprender á sua própria custa. E isso de os monstros estarem debaixo da cama...Antes lá estivessem.
Era tão bom que as coisas encaixassem todas nos estereótipos: isto é perigoso, isto é seguro, isto é correcto, isto é errado...Este episódio do peixinho também me fez pensar noutra coisa inquietante: a facilidade com que se atravessa a linha de separação entre uma coisa e outra. Na aparência o bem e o mal parecem estar perfeitamente demarcados, quer dizer vocês não andam para aí a matar pessoas com um picador de gelo e com uma máscara de hóquei na cara (espero que não, mas não ponho as mãos no fogo por isso), o problema é que a coisa é mais insidiosa do que parece. Uma vez para a cadeira de Psicologia no secundário tive de fazer um resumo da experiencia de Milgram e apesar de todos os defeitos que se possam apontar a esse estudo eu fiquei arrepiada. Não sei se já falei disto aqui, mas ok...É um bocado inquietante imaginar que a senhora da frutaria possa passar de pessoa simpática para um ser capaz de me dar choques até a morte. E dormir descansadamente depois disso. No fundo somos todos uns monstros em potência.