Uma das grandes ingenuidades atuais é imaginar que, se alguém denuncia e descreve a existência do Mal, irá evitar que ele ocorra no futuro.
O uso errado da denúncia como força catártica e explosiva – apesar do alívio momentâneo – realiza justamente o contrário: acaba propagando o Mal. Dando ideias para outras pessoas que, se não fosse a denúncia realizada de maneira impensada, jamais teriam chegado sozinhas a tais conclusões. Como uma avalanche, a boa intenção perde a sua intenção inicial e acaba se transformando em inspiração descontrolada para novas maldades. O Mal fomentando um Mal muito maior.
Não digo que não seja importante denunciar. Sim, precisamos saber o que acontece no mundo, precisamos compartilhar nossos receios e medos. No entanto, existe uma forma de fazer isso, e ela passa longe da ironia ferina, dos palavrões, das frases impensadas que acabam ensinando o caminho do Mal para aquele que nunca tinha pensado naquilo antes. Todos brincam com a frase de Hemingway, “write drunk, edit sober“, mas nunca imaginaram que ela pode ser uma metáfora para “viva loucamente, reflita com calma”. Mais adequado o ensinamento expresso por Horacio Quiroga na nona norma do “Decálogo do perfeito contista”: “não escreva sob o império da emoção. Deixe-a morrer, e então a evoque. Se és capaz então de revivê-la como foi, atingiste na arte a metade do caminho”. O que mais existe hoje são pessoas que escrevem com a emoção à flor da pele, sem desconfiar de que correm dois riscos: ou fazer algo ridiculamente piegas ou, de forma inadvertida, glorificar o Mal e passá-lo adiante.

Muitos anos atrás, fui contratado para defender um rapaz que cometeu um crime bobo: recém-saído dos 18 anos, com a intenção de impressionar uma moça com quem estava saindo, decidiu pegar a bolsa de uma mulher que estava fechando a garagem da sua casa. Até hoje interrogo-me o que o levou a cometer tamanha insanidade, pois era um rapaz humilde, com pais afetuosos (ele era arrimo de família), e tinha pela frente um futuro, senão glorioso, muito digno.
O roubo deu errado, como era de se esperar. Ele arrancou a bolsa das mãos da proprietária, dobrou a esquina e teve o azar de encontrar um policial à paisana que, ao ouvir os gritos da mulher assaltada, sacou a arma e desferiu um tiro no joelho do outro. Pelo resto da vida o rapaz iria mancar.
(Não existe crime “bobo”. O crime é crime ou não é. Não existe nada correto ou romântico em assaltar alguém. O policial à paisana agiu com desproporção, mas, no calor do momento, quem pode julgá-lo? Sei que muitas pessoas podem ler esse relato e imaginar que o rapaz teve o que merecia ou xingar a fúria com que ele foi tratado pelo sistema, mas, no mundo dos fatos, as coisas simplesmente são, e ninguém pode saber como agiria até passar por isso, assim como ninguém está livre de ter a sua vida inteira determinada por um único segundo de idiotice).
O rapaz foi preso e eu acabei contratado para defendê-lo. Os pais oscilavam: o homem estava desapontado com o filho, a mulher encontrava argumentos para justificá-lo. Tudo muito clichê. Não parecia tão improvável vencer o processo, conseguindo uma pena pequena e justa para que ele nunca mais cometesse aquele equívoco, até por que já tinha sido punido com o tiro no joelho. Seria algo terapêutico e – assim esperava – um “turning point” na vida do menino. Eu o orientei a ser sincero e a dizer a verdade, esperando que, com a confissão espontânea e por ser primário, a pena fosse reduzida ao mínimo legal.
Em resumo, deu tudo errado. O rapaz seguiu minhas instruções, mas pegou pela frente uma juíza extremamente rigorosa, a qual acreditava que o menor dos crimes tinha que ser punido com rigor exemplar. Ela o condenou à máxima pena possível, e a ser cumprida no Presídio Central por, no mínimo, longos 3 anos antes de passar para outro lugar. Entrei com recurso para a segunda instância e, um ano depois, peguei um desembargador que, em um acórdão de 15 páginas, ficou 12 falando sobre a classe política do Brasil e que o país estava deteriorado moralmente por causa da criminalidade para, no final, manter a sentença abusiva. Entrei com recurso para Brasília, nem chegou a ser julgado. Entrei com todos os recursos possíveis, e perdi todos.
No meio do cumprimento da pena, o rapaz morreu. Pegou tuberculose no Presídio, foi para o hospital e teve uma infecção generalizada que nunca ficou bem explicada. A essa altura do campeonato, eu não era mais o seu advogado. Os pais tentaram contratar outros profissionais, e eles viram o óbvio: todos os recursos tinham sido tentados, mas, às vezes, simplesmente não conseguimos ganhar.
Não existe explicação lógica para isso; talvez seja azar ou uma conjunção de fatores, como na queda de um avião. Nem dá para culpar a cegueira dos juízes ou a minha inaptidão técnica, pois ninguém pode ser responsabilizado, todo mundo agiu dentro dos seus papéis. Existem vidas que não deveriam ter sido, e isso é o que mais nos assombra: algumas pessoas vem ao mundo, mas era melhor que não tivessem vindo. Eis algo que não podemos dizer em voz alta, apesar de ser um medo que nos espreita a cada vez que estamos no quarto escuro: eu devia estar aqui no mundo ou não? Estou na lista do que sobrevivem ou naquela dos que serão expurgados?
Enfim, tudo isso para contar que esse caso ainda me assombra. Tive muitos depois, muitas vitórias e derrotas, mas continuo recordando desse, talvez por um detalhe quase insignificante no contexto. Eu costumava visitar o rapaz no Presídio Central: ele estava com medo, e frequentemente pedia a minha presença lá, para saber que ainda estávamos lutando para libertá-lo. Nas primeiras visitas que fiz, o rapaz chorava, implorava por Deus e pela mãe, esticava a minha permanência lá, soluçava, fazia promessas para todos os santos possíveis e imaginários. Eu sentia muita pena; tentava acalmá-lo e passar segurança, mas via um menino magro, fraco e que a vida estava esmagando com dureza desproporcional (um lado meu, envergonhado, também agradecia por não estar nessa situação, pois reconhecia – com espanto – que não era tão difícil imaginar que eu próprio podia estar no lugar do rapaz, na posição involuntária de dejeto e pária social).
Na última visita que fiz ao rapaz, não foi mais ele quem entrou no parlatório. O jovem assustado e medroso de antes tinha virado uma criatura sombria, de olhos vazios que me evitavam, sondando o ambiente. Estava com o rosto marcado por feridas, os dedos pareciam garras e até a sua voz tinha mudado, era algo mais calculado, mais frio. Ele perguntou como estava a sua situação jurídica e eu expliquei. Ao final, o rapaz perguntou sobre a aplicação de alguns artigos jurídicos, eu respondi e ele falou “doutor, pensei muito no que aconteceu, falei com meus amigos, e agora sei onde errei. Na próxima vez, quando eu sair daqui, não vou errar de novo, sei como acertar…”. Olhei para o rapaz e implorei, “cara, não pensa ‘na próxima vez’, pensa que tu nunca mais vais fazer isso, não que vais voltar a fazer, pensa nos teus pais, eles são velhinhos” e ele sorriu – hoje sei que estava rindo da minha inocência – e disse “claro, doutor, claro”. Muito tempo em contato com o Mal puro o tinha transformado em uma criatura amarga e feita de puro ódio. Não voltamos a nos encontrar.

O Mal possui uma incrível capacidade de propagação, e age por acumulação: quanto mais Mal compartilhado, mais ele se acomoda como sedimento no espírito alheio. Viver em meio ao Mal aumenta a possibilidade de se tornar como ele.
Estar em contato com a maldade humana e não saber lidar com as suas consequências é algo perigoso. Leio muitos textos que possuem uma origem boa, decente, mas que soam mais como propaganda para fertilizar outras mentes nas quais a maldade ainda está inativa. Pois o Mal também fascina: toda pessoa que denuncia algo mal consegue esconder a sua admiração relutante pelas atitudes ou pela coragem do outro, e não existe recurso mais enganoso do que as palavras. Elas nos convencem de que estamos fazendo o certo, mas, sem querer, é o contrário.
Por isso me impressiono com a ingenuidade de quem pensa que, denunciando algo, está impedindo que aconteça. Uma denúncia mal feita, realizada sob o império da emoção, acaba virando propaganda. As pessoas pensam que escrever algo é alertar os outros, mas esquecem que existe uma pequena diferença entre admiração e nojo. Não duvido que muitos leem as denúncias mal formuladas nas redes sociais e pensam “ah, agora que sei onde tal pessoa errou, vou fazer certo”. Assim como Deus, o Mal também possui desígnios misteriosos e, às vezes, o melhor lugar para achá-lo é no meio de uma “boa” intenção.