(...) «O escopo da literatura, bem entendido, não se confina no papel platónico, arte pela arte. Seja a noção motriz do progresso formulada assim ou assado: marcha geométrica frontal; eterno retorno; passagem do homogéneo ao diferenciado, a literatura é uma sorte de catalisador do facto social pelo que envolve de informação, impulsionamento, construtura. Ninguém ignora a acção dos enciclopedistas.
Quanto ao alcance plástico da literatura, entregue à sua "vis" criadora, nada mais concludente que o papel que teve Dickens na evolução social da Inglaterra. Foi graças aos seus romances de acerba crítica, pintando o pobre e a sua espelunca, satirizando o lorde e a sua prosápia, e à sua trasbordante simpatia humana a favor dos simples e dos deserdados que se emaciou na Grã-Bretanha a desigualdade das classes. E sendo considerado este autor como uma das causas de ordem moral que pouparam ao seu país uma revolução por meios violentos, toda a gente da sua terra o adora e abençoa.
Para que o escritor possa exercer o grande ministério que lhe cabe dentro de uma sociedade consciente e solidária, é indispensável que não traia o génio que lhe é próprio, a sua índole, a sua raça, seja livremente no meio o que uma antena é no éter quando capta os sons infinitesimais que o sulcam.
O Mundo, mormente o Mundo moral, está no oitavo dia do Génesis. Uma semana de criação foi pouco para fábrica tão complexa, e o sábio, o artista, o filósofo, o escritor, não têm mãos a medir. Em regenerar a máquina andamos todos com mais ou menos entusiasmo... com mais ou menos corda. Sem esta, larga, a pleno arbítrio, nada feito.»...